Sobre cinema, mulheres e Paris

by: Carol Teixeira -

Fala-se muito do #girlpower mas às vezes esquecemos que o mais básico para empoderar o mundo feminino é a união das mulheres, é falarmos bem umas das outras não num plural abstrato, mas individualmente – exaltar o que a outra faz de bom ao invés de ficar naquelas de slut-shaming, age-shaming, fat-shaming ou ficar brigando porque temos visões diferentes sobre o feminismo. Pensei nisso quando minha amiga Rose D’Agostino me escreveu comentando sobre uma entrevista que tinha feito com a cineasta brasileira Katia Adler, mulher que teve, há 17 anos, a iniciativa de apresentar via Paris para toda Europa o que é o cinema brasileiro (e criou o Festival de Cinema Brésilien de Paris que hoje é uma super vitrine para nosso filmes). Fiquei com vontade de publicar essa entrevista e me veio esse pensamento: o blog precisa falar mais de mulheres que arrasam, preciso fazer jus a essa minha ideia de empoderamento feminino que sempre expresso. Todas nós precisamos.

Rose, que também arrasa, é uma amiga livre & criativa que mora em Paris. É atriz e, segundo suas próprias palavras, está “num ano sabático experimentando coisas”. Em Paris integra um laboratório de performance arte com intervenções urbanas e faz projetos incríveis que não vou falar agora porque eles merecem um post só para eles. Rose conversou com Kátia Adler sobre mulheres no cinema. A matéria completa vocês podem conferir abaixo:

 

public

 

Primavera de 1997 em Paris. A cineasta brasileira Katia Adler, que já estava há muitos anos longe de casa, produzindo para cinema e televisão na França, tinha uma necessidade urgente de se conectar com sua origem, voltar pras suas raízes, recuperar sua identidade. Inventou de fazer uma mostra de filmes brasileiros na cidade luz. A ideia virou um projeto et voilá! Surgia o Festival de Cinema Brésilien de Paris, hoje em sua 17a. edição.

O Festival que aconteceu de 7 a 14 de abril em Paris, trouxe 32 filmes, alguns ainda inéditos no circuito francês, entre longas, documentários e curtas. E com destaque para muitas mulheres, entre elas Carolina Jabor, Ale de Abreu e a Anna Muylaerte com o seu maravilhoso ‘Que horas ela volta?’, prêmio de melhor atriz em Sundance pra Regina Casé.

 

Com a presença badalada de artistas e diretores, a festa do cinema brasileiro este ano invade uma das mais tradicionais salas de Paris, o cine L’Arlequin, no mítico bairro de Saint Germain, com direito a um bar temático que serve (é claro!) caipirinhas pra animar os cinéfilos antes e depois das sessões.

 

Numa conversa rápida com a carioca que, além de fundadora é curadora do Festival, uma conclusão: cada vez mais mulheres gritam “Ação!” no set de filmagem e ampliam seu espaço num reduto sempre muito masculino, o da direção de filmes.

 

 
caipirinha

Katia, conta pra gente como foi esse começo, como assim você sozinha inventou de fazer um Festival de Cinema Brasileiro em Paris?

 

Pois é, eu já estava aqui há alguns anos, vim pra estudar cinema, acabei ficando, produzindo curta metragens, trabalhando pra TV e sentia uma necessidade de recuperar minha identidade brasileira, me conectar com a minha brasilidade. Daí a vontade de fazer uma mostra. Era época do Collor, o Brasil tinha poucos filmes, mas aí, foi como fazer um filme, mesmo. O desafio foi mais ou menos o mesmo.

 

No Brasil a gente está acostumado com alguma dificuldade, mas aqui, como é que foi? Você como mulher, estrangeira, foi mais difícil?

 

Na verdade é sempre dificil. Até hoje é difícil. Todo ano recomeço do zero. É como se eu fizesse um filme por ano. Ter a ideia, porque todo ano tem uma temática, fazer um roteiro, selecionar os filmes, buscar patrocínio, tudo igual. Eu nunca olhei pra dificuldade e nem quero olhar. Me falaram que era impossivel. Pessoas que eu amo me disseram que era loucura, que o Brasil não tinha cópia, era bangunceiro demais pra isso, mas mesmo com dificuldade, quando a gente quer uma coisa a gente luta e consegue. É assim pra tudo, não é? E eu nem falava de continuidade, eu falava de uma edição. Mas aí, depois que você faz uma e vence as dificuldades, você percebe que pode fazer outra, começando do zero, mesmo. Às vezes eu quero muito um filme e eu espero um, dois anos pra conseguir. Não tem problema, o Festival é amplo, a ideia é de um panorama, mesmo.

 
katia adler

E o interesse do público, como é? Quem é esse público francês que quer ver o cinema brasileiro?

A França adora o Brasil, mas o público cinéfilo estava muito longe do cinema brasileiro, parou no Glauber, no cinema novo.No início o público só conhecia o Cacá Diegues, o Nelson Pereira, o Joaquim Pedro, porque eles estiveram na França no anos 70, 80 e marcaram uma era. Depois de 2005, quando teve o ano do Brasil na França, as pessoas começaram a se interessar de outra forma pelo Brasil, o público veio mudando a cada ano. O Brasil passou a ser um destino importante pros franceses, eles vão pro Brasil depois de terem tido um contato com a cultura, gostam e mantém essa ligação. Vem pro Festival pra ouvir e falar o português, pra matar a saudade. Dependendo do filme a gente alcança um tipo de público. A gente mira sempre no público jovem, porque no geral, quem vem é mais velho, mas a gente tem essa meta de divulgar pro jovem, mesmo. Este ano a gente tá fazendo uma pesquisa pra conhecer melhor esse público.

 

O Festival então acaba revelando um pouco do Brasil, aguçando as pessoas.

 

Sim.E como a gente mostra filmes recentes e alguns distribuidores compram os filmes brasileiros pra exibir na Europa, acaba sendo uma vitrine que amplia esse conhecimento sobre o que se produz no nosso país.

 

E como é a tua curadoria, como é o teu processo?

Todos os anos a gente tem um tema e uma homenagem importante. Este ano é cinema e literatura e a Maria Betania é a personalidade histórica brasileira homenageada, porque ela é a maior cantora do Brasil, nos seus 50 anos de carreira, isso tem q ser comemorado. Ela nao pode vir mas são 3 filmes homenageando a história dessa cantora maravilhosa. E tem sempre documentários. Eu insisto em docs porque eles são muito importantes, muito reveladores do nosso tempo. Então, a partir de um tema eu sigo no meu roteiro e vou buscando filmes, vou vendo, selecionando, negociando.

 

A gente sabe que o mundo do cinema é muito masculino e este ano tem 7 diretoras apresentando filmes, você é uma mulher que faz esse filme/festival todo ano, vi que a tua equipe é basicamente composta de mulheres, isso tá mudando? 

 

Pois é, a gente tem algumas diretoras se destacando e isso é pra ser comemorado! Mas a participação feminina está longe de ser representativa não é só no Brasil. As mulheres são excelentes produtoras, mas na direção a gente ainda tem um caminho aí pra percorrer porque sim, ainda é um reduto em que os homens reinam. As mulheres estão ganhando lugar, estão mais presentes e fazendo um lindo percurso. O filme da Carolina Jabor, o da Anna Muylaerte, enfim, os filmes de diretoras mulheres que a gente mostra no Festival são grandes trabalhos.

 

E a estética veio mudando também, né. Teve um momento em que o Brasil era só violência em favela, depois do boom Cidade de Deus.

 

Sim, mudou. Antes era sertão, depois favela, mas este ano a gente tem um panorama, filmes muito diferentes, sensíveis, musicais. Mas a gente fecha o Festival com um filme de ficção delicadíssimo, feito por uma mulher, inclusive, que é o “Que horas ela volta?” e com um documentário interessantíssimo, o “Favela Gay”, porque favela tem que ter também.  A favela é parte do Brasil e tem q ser tratada como um bairro, de forma humanizada, ela é parte fundamental do Rio de Janeiro, de onde eu venho. Então, encerrar o Festival com esses dois filmes mostra o quanto ele é amplo, ele traz a vitalidade e a diversidade do cinema brasileiro hoje. E eu acredito que a gente vem contando a nossa história pro mundo já há alguns anos através do nosso cinema.


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