‘#30ContraTodas’ ou ‘Sobre não ser mais a Garota Legal’

by: Carol Teixeira -

tumblr_npbdiqBOEv1qza249o1_500

 

A história do estupro coletivo da menina de 16 anos me abalou tanto que eu simplesmente não consegui, até hoje, escrever sobre. Alguns dias depois da primeira notícia me vi no taxi, como em outra noite qualquer, indo para um bar no centro de Sp encontrar uns amigos. No caminho fui vendo minha timeline no facebook e cliquei numa matéria que tinha depoimentos da menina violentada, contando que ela estava se sentindo um lixo e lamentando que, além de tudo que ela passou, algumas pessoas ainda estivessem a julgando. Ainda não tinha se dado a sequência desse show de horrores: delegado dizendo que “nao podia afirmar que teve estupro” (apesar dos vídeos muito claros provando), notícia sobre o interrogatório humilhante ao qual ela foi submetida, comentários escrotos nas redes culpabilizando, como sempre, a vítima, pessoas defendendo o acusado dizendo que ela era uma vadia que fazia orgias (como se isso autorizasse 33 homens a dilacerar o corpo e alma dela), etc. Mas aquilo ali foi suficiente para estragar minha noite. Meus amigos, que estavam indo a pé, avisaram que tinham atrasado e chegariam em 10 minutos. Me vi, de repente, nervosa e insegura por estar sozinha, desci na praça que precisava atravessar para chegar ao bar e no caminho tive que passar por um grupo de homens. Fiquei com medo, instintivamente fechei meu casaco, puxei minha saia para baixo para ficar mais comprida, caminhei rápido, tensa, sentindo uma vontade de chorar estranha. Estava completamente desestabilizada, tudo aquilo tinha me tocado num ponto mais profundo, além da óbvia empatia com uma vítima que passou por aquele horror. Tinha algo ali que me desestruturou completamente. O que era?

É sobre isso que quero falar, sobre o ponto específico que essa tragédia tocou em cada mulher e fez com que nos sentíssemos todas violentadas. E eu gostaria que os homens que estão lendo esse texto leiam até o final, abertos para entender e com humildade para admitir que talvez não saibam de nada disso.

Essa violência hedionda nos remete a centenas de pequenas violências que sofremos ao longo da vida, coisas que ficam tão escondidas e internalizadas que às vezes a gente nem percebe. Os gritos feministas tem sido essenciais para que essas coisas venham à tona. Não importa a classe social, é uma vida toda de pequenos desrespeitos que correm silenciosos, subjacentes a toda vida que segue –  até porque só recentemente temos falado mais sobre isso. Eu, especialmente na minha vida adulta, me cerquei de homens incríveis, que estão de acordo com meus valores. Escolhi ter eles ao meu redor. Felizmente tive na minha história amorosa também homens que só me fizeram bem e me respeitaram, os machistas que tentaram apagar minha luz foram devidamente chutados. Mas isso foi na minha vida adulta. É na adolescência, justamente perto da idade dessa menina violentada, que vivemos o auge da cultura do estupro, é nela que esses valores errados vão sendo introjetados aos poucos até que todos nós achemos normal.

Eu tive sempre uma situação privilegiada, estive dentro dos padrões, cresci em colégios de elite, rodeada por pessoas de um bom nível cultural, muito longe da realidade dessa menina estuprada. Mas isso não me impediu de passar pelo que todas as mulheres passam porque isso não é algo que só rola na favela: já aguentei cara me xingando na balada porque eu não correspondi a uma cantada dele, homem que dizia me amar tentando me diminuir porque se sentia ameaçado por pontos fortes e positivos meus, já vi dois caras que me deram carona bêbados tentando me agarrar e eu ter que me desvencilhar a força e sair correndo do carro (detalhe: isso foi em Punta del Este, saindo de uma festa de playboy e não num baile funk da favela). Já tive trabalhos em que homem em posição superior a mim tentou ficar comigo e, eu não topando, tentou me prejudicar profissionalmente. Em outro momento, um cara que foi arrumar coisas na minha casa tentou me agarrar. Já vi homens me questionando por eu escrever tão abertamente sobre sexo, dizendo que eu devia ‘pegar mais leve’. Cresci, como todas as mulheres, ouvindo que eu devia “me dar ao respeito” para que “os homens me valorizassem” (nada disso deu certo, felizmente, virei essa colunista de sexo desbocada que vos fala). Isso tudo fora as coisas cotidianas que só recentemente as pessoas começaram a questionar, as cantadas escrotas nas ruas e outros machismos quase invisíveis que vivemos como o gaslighting, manterrupting, mansplaining (se você não sabe o que é, procure saber. nesse texto tem boas explicações sobre esses termos). As mulheres que conheço todas já passaram por coisas parecidas ou bem piores. Já vi muitos homens esclarecidos se referindo às feministas como feminazis radicas, falando que coisas como aquele movimento #meuamigosecreto no facebook era “um exagero” ou sendo omissos em relação a algum machismo alheio. Uma vez falei de uma amiga produtora que tinha sido assediada por um diretor e um conhecido meu, também diretor de cinema, comentou “mas é que também essas meninas vão com shortinho curto pro set, tão pedindo né?”.

É toda uma escrotidão autorizada. A maioria das coisas que citei que aconteceram comigo foram na adolescência. É ali, como eu disse, que essa cultura do estupro é perpetuada e fica marcada a ferro e fogo em homens e mulheres. Porque na adolescência é a fase na qual a gente quer ser a ‘garota legal’. Somos ensinadas a ser essa garota, crescemos desesperadamente achando que temos que ser essa mina legal, sem frescura, a que da risadinhas complacentes. Porque nos ensinam que temos que agradar, disputar pela atenção do homem, não ser a mala da mesa que vai ir contra a expectativa do grupo ou que vai fazer cara feia para piadinha machista mesmo se não for com ela. Lembro de um trecho genial do livro Garota Exemplar, de Gillian Flynn, na qual a personagem faz uma crítica ao padrão de “cool girl” que todo homem quer ter, o qual aceitamos resignadas:

“Ser a Garota Legal significa que eu sou uma mulher gostosa, brilhante, divertida, que adora futebol, pôquer, piadas indecentes e arrotos, que joga vídeo game, bebe cerveja barata, adora ménage à trois e sexo anal e enfia cachorros-quentes e hambúrgueres na boca como se fosse anfitriã da maior orgia gastronômica do mundo ao mesmo tempo em que de alguma forma mantém um manequim 36, porque Garotas Legais são acima de tudo gostosas. Gostosas e compreensivas. Garotas Legais nunca ficam com raiva. Apenas sorriem de uma forma desapontada e amorosa e deixam seus homens fazerem o que quiserem. Vá em frente, me sacaneie, não ligo, sou a Garota Legal. Os homens realmente acham que essa garota existe. Talvez se deixem enganar porque muitas mulheres estão dispostas a fingir ser essa garota.”

Sim, nós aprendemos que devemos ser essa garota. E, acredite, não é facil tirar da cabeça da gente todas essas lições de merda arraigadas no nosso superego, por mais empoderadas que sejamos.

É humilhante muitas vezes termos que lembrar de pequenos detalhes nos quais simplesmente, por costume, estivemos nesse comportamento automático, porque nos ensinaram que temos que ser irresistíveis. Eu fui, durante muito tempo, a Garota Legal. Só de uns anos para cá que me vi me destacando desse papel e vendo que não agradar todo mundo faz parte, é humano e que minha autenticidade e meu valor e minha liberdade estão, também, na imposição as minhas ideologias – mesmo que isso signifique ser chata algumas vezes. Vejo muitas mulheres se dizendo empoderadas & independentes mas que no dia-a-dia estão ali, dando risadinhas complacentes pra não desagradar, ‘pegando leve’. Fico com vontade de chegar para elas e dizer: amiga, você não precisa ser a Garota Legal.

Lembro de um artigo ótimo da atriz Jennifer Lawrence para Lenny Letter (leia aqui, vale a pena) no qual ela comentava sobre o que sentiu quando viu as informações que vazaram dos emails da Sony (e foi revelado o quanto as atrizes ganhavam absurdamente menos que os atores de mesmo nível). Depois de se revoltar ela começou a lembrar dela mesma nas negociações, da cautela excessiva que tinha ao cobrar mais por medo de perder, por medo de ser considerada chata, difícil, por medo de desagradar. Cautela que nos ensinam a ter: os homens não tem esse medo porque simplesmente nao são criados assim. E, continuando a reflexão, ela se perguntou se o que foi dito num dos emails vazados – que a Angelina Jolie era uma mimada chata – não teria sido por alguma imposição profissional normal que ela tenha feito, que, vinda de um homem teria soado até admirável, viril.

O que tudo isso que escrevi até aqui tem a ver com a cultura do estupro? Tudo.

Tenho visto muitos posts legais de homens na minha timeline e espero que essa consciência – de que essa luta é de todos e não só das mulheres – tenha vindo para ficar. Mas, se você é homem e não entendeu ainda a importância de tudo isso que eu falei, tenha a humildade de admitir que você simplesmente não entende o que a gente passa, mas não ouse falar mal de feministas, as chamar pejorativamente de feminazi ou falar que são chatas ou radicais demais. Existem várias formas de exercer o feminismo e todas elas – todas – são essenciais. Não ouse também reclamar da patrulha do politicamente correto quando isso é apenas uma busca pelos direitos humanos. Não ouse. Pelo menos não perto de mim. Porque já faz bastante tempo que eu não sou mais a Garota Legal.

 

 

 

 


Comments