A 4 mãos: minha experiência tântrica

by: Carol Teixeira -

(texto publicado na minha coluna na Revista Vip sobre a experiência que tive com massagem tântrica a quatro mãos)

 

Uma das coisas sobre escrever há tanto tempo sobre sexo é que todo papo de mesa de bar comigo vira, inexoravelmente, um papo sobre sacanagem. E é curioso perceber que os temas – e as reclamações – entre as mulheres geralmente são muito parecidas. Semana passada num bar, entre vodkas & cervejas, estavam todas reclamando que suas últimas transas estavam sendo meio insatisfatórias: mais rápidas do que gostariam, muito focadas na penetração, meio ansiosas, faltava algo que elas não sabiam bem especificar o que era. Será que os homens estão desaprendendo a transar?, questionou uma. Talvez sejamos nós que não estamos conseguindo nos entregar, rebateu a outra. Não bota a culpa na gente, não, disse o garçom amigo entreouvindo o papo e se metendo no assunto. No dia seguinte falei com alguns amigos homens sobre isso e eles me disseram que essa sensação não é exclusivamente das mulheres, eles também tem ficado um pouco insatisfeitos com o sexo ultimamente.

Lembrei do filósofo Pondé me dizendo numa entrevista: “nossas avós gozavam mais”. Nunca se falou tanto tanto de sexo, o mundo nunca foi tão aberto e, no entanto, algo foi perdido na correria em que vivemos que tem refletido nessa insatisfação sexual. O que é? Foi isso que fui descobrir.

Confio mais no caminho do corpo (e não da racionalidade) para entender as coisas. Então fui falar com Deva Nishok, o mestre tântrico do Centro Metamorfose. Ele criou técnicas de massagem tântrica que, através do orgasmo, fazem atingir questões que talvez não conseguíssemos alcançar apenas pelo caminho racional.Eu já tinha recorrido a ele há anos atrás em outros momentos de ~crise~ , sei que isso me conduziria a algum insight especial. Ele sugeriu que eu fizesse algo que não tinha feito ainda no Centro: uma massagem tântrica a quatro mãos. Dois tântricos me massageando por duas horas. Ok, né? Vou negar isso? E ele sugeriu que fossem os dois terapeutas que estão há mais tempo no Centro, o Evandro e o Pashupati.

Eis que, numa bela tarde de sexta, enquanto pessoas na cidade trabalhavam estressadas, eu chegava na sede do Centro Metamorfose na Vila Mariana para receber uma massagem tântrica de dois tântricos. Se você tem uma dirty mind como eu, deve estar imaginando uma situação extremamente sexual, uma coisa meio filme pornô da Erika Lust, dois caras poderosos deslizando as mãos no meu corpo com óleo e fazendo gozar inúmeras vezes. É isso, mas o apelo puramente sexual sai de cena no momento em que você começa a sentir a avalanche de sensações indefinidas e fortes que o tantra provoca em você. Daí você entende que, com o perdão do trocadilho, o buraco é bem mais embaixo. Qualquer possibilidade de fantasia sai de cena e é atropelada por uma força de cura e estados alterados de consciência que eu compararia mais com uma droga do que com sexo.

Mas, pare. Rewind. Deixa eu explicar.

A yoni massagem (que é essa massagem tântrica feita na mulher) tem duas fases. Começa com a sensitive, que consiste em o terapeuta (no meu caso OS terapeutas) ir passando só as pontas dos dedos, com uma leveza absurda, por todo o corpo. Depois de fazer na frente e atrás, passa para a yoni massagem, que é a massagem na vagina. Ele explora toda a área de uma forma diferente da masturbação normal – e cada toque em cada ponto tem um sentido. A ideia é levar a energia sexual do chakra sexual (que fica naquela área) para os outros chakras até chegar no último, que é no topo da cabeça. A energia que é trabalhada chama-se kundaliní. Ela fica na base da coluna e deve subir ao logo do trabalho proporcionando essas tais sensações surreais que to falando. Nesse processo muita coisa é curada e compreendida.

Mas voltemos àquela aconchegante sala na grande casa do Centro Metamorfose. Luz baixa, eu deitada num tatame completamente nua, música agradável e dois homens ao meu lado prontos para me tocar. Não vou mentir que não estava nervosa, por mais liberal que a gente seja digamos que essa não é uma situação corriqueira na minha vida, né? Mas me lembrei do que o Deva tinha me dito: “o ideal é você receber a massagem sem nenhuma preocupação e, como uma xícara vazia, você se torna recepção. Entre num estado meditativo e se deixe perceber as manifestações hormonais que a massagem irá te provocar, entre numa condição não sexual, uma transcendência onde o sexo sagrado se manifesta”. Acreditei, fechei os olhos e me entreguei.

No início, um deles começou a sensitive pelos meus pés, subindo vagarosamente por minhas pernas. O outro começou pelo topo da minha cabeça, passando pelo meu rosto. Só as pontas dos dedos, leves e delicadas. Senti imediatamente acordar minhas energia e achei estranho meu corpo estar reagindo com tão pouco. Uns cinco minutos depois eles estavam com as mãos na minha barriga, ainda na sensitive. Nesse momento senti uma energia muito forte, meu corpo começou a ter espasmos naquela área. De novo questionei, ainda um pouco no mental, como aquilo, tão incontrolável, estava acontecendo provocado apenas pela ponta dos dedos deles. Mas de repente a sensação foi tão forte que parei de racionalizar. E foi ali que comecei a chorar. Era um choro de comoção, não sei explicar. Mas foi catártico, lindo. Sentia a energia do ventre irradiar pelo corpo todo, soltando tudo, liberando tudo. Chegou uma hora que os espasmos começaram a se confundir com sensações próximas de um orgasmo, eram mini orgasmos. Eles continuaram até que chegou o momento da yoni massagem. Passaram as mãos nas partes internas das minhas coxas e foram subindo, tudo muito lento e leve. Como eu já estava num estado diferente do que estou no sexo normal, não reagi com uma excitação normal que teria se alguém, em outra ocasião, passasse as mãos ali. Sentia algo forte mas não era sexual. Um deles voltou para a parte superior do meu corpo massageando braços, ombros, peito e barriga e o outro continuou subindo pelas pernas até chegar com os dedos ao redor do meu clitóris. Não sei dizer exatamente o que ele fazia mas era diferente, trabalhava pontos que eu não tocaria me masturbando, por exemplo. E eu gozei muitas vezes em intensidades diferentes a ponto de não saber diferenciar se eram orgasmos ou alguma coisa nova que eu estava descobrindo ali e não sabia dar nome. Depois os dois estavam ali embaixo, um estimulava meu clitóris e o outro meu ponto g (que fica na parte interna na vagina, uns dois dedos acima da entrada). A música ficava mais intensa, mais tribal e isso intensificava minhas sensações. Sei que nesse momento tinha um vibrador ali estimulando esse ponto, talvez um outro no outro ponto também mas não sei dizer porque nesse momento eu meio que não sabia onde estava. Meu corpo se mexia além do meu controle, os espasmos cada vez mais fortes, a racionalidade completamente deixada de lado. Chegou um momento (duas horas talvez?), depois de tantos orgasmos e sensações intensas e indefinidas eu tive que pedir para parar porque achei que meu corpo não aguentaria mais. Meu corpo todo vibrava, sentia minha cabeça vibrar, sentia claramente a energia ascendendo pela coluna. A única coisa que falei durante a vivência toda foi “É normal minha cabeça estar vibrando?”. Porque né? Digamos que não é todo dia que isso acontece. Foi lindo e intenso e arrebatador. Nunca tinha sentido nada parecido na vida.

Ao acabar, depois de ficar quieta por um tempo, assimilando tudo aquilo, sentei. Luz ainda baixa, o mesmo clima. Eles sentaram um de cada lado meu. Quando consegui falar perguntei. “Porque não sinto isso no sexo normalmente? O que é isso que aconteceu?” Claro que não é todo dia que tenho tântricos superpoderosos me tocando, mas não era só essa a questão. Porque uma das reações mais intensas que tive foi apenas com as pontas dos dedos passando na minha barriga. Por que isso? Um deles me respondeu: “Presença. Nós estávamos todos presentes aqui. Presença é tudo que você não tem hoje em dia no sexo, as pessoas estão sempre com a cabeça em outro lugar ou apegadas a expectativas delas ou do outro. Acabam não estando presentes e o toque sem presença não tem o mesmo poder”

Repetindo agora em maiúsculas, PRESENÇA. Ali tive a resposta para meu questionamento inicial, ali tive a certeza de que era isso que estava faltando no sexo mais ou menos que todo mundo andava fazendo nessa pós-modernidade frenética em que vivemos.

“Esse ritmo em que vivemos cria uma necessidade de resposta muito rápida de prazer, você quer ter o prazer e quer rápido, mas no campo das relações tem a interação que é essencial.”, Evandro me disse. “A gente perdeu a conexão mesmo. E isso faz diferença. Por isso o foco cada vez mais na penetração, essa parece a resposta imediata mais lógica. E o sexo fica pior para todos.”

A temporalidade do sexo não é a das 10 estocadas e do orgasmo rápido do pornô, não é a das redes sociais, não é o da velocidade absurda com que as mensagens chegam nos whatsapp ou da rapidez desatenta com que você navega pelas páginas na internet ou que passa para o próximo no Tinder ou happen. Sobre essa ânsia da penetração que vemos nos homens hoje e até em mulheres – porque elas se acostumam com esse ritmo – Pashupati pergunta: “você quer penetrar pra aprofundar ou pra acabar logo? Às vezes a ânsia da penetração é uma fuga do que pode surgir do contato mais inicial que é mais profundo, do afeto.” Precisamos reencontrar o tempo do sexo, é ele que traz o prazer real, inteiro, presente. O tantra traz justamente esse tempo perdido de volta, por isso que uma experiência como essa, se conseguirmos absorvê-la e levar para nossas transas por aí, pode ser revolucionária. Precisamos recuperar o tempo do olhar, do toque que significa algo, da presença.

E eles trazem outra questão, interessante de refletir sobre em tempos de empoderamento feminino: “Não leve o empoderamento para a cama, deixe de fora. Ele impede a sua vulnerabilidade que é essencial para sentir e inibe a vulnerabilidade do homem.” Relação de poder entre homens e mulheres é algo que tem que ser eliminada na cama a não ser que venha a serviço da fantasia.

E não esqueça de uma lição básica da cultura matriarcal que é o tantra: a mulher conduz. É o nosso tempo mais lento de prazer que conduz aos maiores orgasmos para ambos. Quem sabe se deixar conduzir pelo tempo feminino não seja justamente o que leve a um sexo mais satisfatório para você e para ela, que está por aí, reclamando em mesas de bar? Todos nós queremos um sexo presente, pleno e entregue, sem escudos e medos e expectativas paralisantes. É só mudar o olhar, está literalmente em nossas mãos.


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