A arte dos dates imperfeitos

by: Carol Teixeira -

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No início de um dos livros do Nick Hornby, a personagem está no carro, no meio do estacionamento e liga para o marido. O papo cotidiano fica um pouco estressante e ela acaba dizendo que quer o divórcio. Assim, numa bela tarde, sem muito pensar. Aquele ato não tinha muito a ver com ela, certamente ela não se descreveria como alguém que faz esse tipo de coisa, mas acontece. E logo a personagem reflete, pensando que seria julgada eternamente por ato meio tresloucado: “às vezes somos julgados por coisas que fazemos apenas uma vez.”

 

Quem nunca?

 

Somos julgados muitas vezes pelo que acontece apenas uma vez, por primeiras impressões, por atitudes isoladas. E também julgamos da mesma forma. Tão apressados em nossa temporalidade pós-moderna (que não condiz com nosso tempo interior), tão incapazes de ler as coisas e as pessoas além de um número limitado de caracteres. Perdemos nossa prolixidade emocional.

A verdade é que temos dias ruins, fases difíceis e às vezes fazemos coisas que não nos definem, que não consistem num padrão da nossa personalidade, mas que enfim, acontecem. O que fazer quando isso rola num date por exemplo?

 

Sempre fui a rainha de me meter em date mesmo não estando psicologicamente bem. E cada vez que rolava isso eu ficava me culpando, prometendo que só sairia com alguém se estivesse num dia ótimo. Por motivos de: a outra pessoa fica te achando louca, isso é fato. Já encontrei caras estando com febre, ou fraca (sou vegetariana e às vezes fico com carência de vitamina b12, ficando muito fraca. E digo essa coisa estranha pra pessoa: “to com carência de b12, desculpa” haha) ou em dias ruins mesmo, em que eu estou numa TPM horrível, meio ansiosa com algo ou meio dopada do rivotril que tomei na insônia da noite anterior. Mas em encontros normais isso supostamente não pega bem, as pessoas tem essa necessidade de projetar uma imagem impecável – do contrário elas sentem como se estivessem sendo propaganda enganosa, uma foto meramente ilustrativa de um produto muito arrasante que quando você vai pedir no restaurante não é tão incrível como o da imagem.

 

A real é que todo mundo parece uma foto-meramente-ilustrativa quando não é visto de perto. Sim, porque olhando de perto ninguém é normal (oh yeah, Caetano), as pessoas tem dias ruins e bons, problemas cotidianos, questões existenciais, ansiedades, inseguranças. Coisas que você só não enxerga se tiver enchendo a cara todos dia e só pegar gente na loucura da noite.

 

A verdade é que hoje em dia eu continuo não deixando de sair com alguém se estou num dia ruim – a diferença é que não me torturo por isso depois. Simplesmente digo o motivo e sigo normalmente esperando que o outro entenda que eu não posso ser definida só em um encontro, que ninguém pode ser julgada por aquilo que fez apenas uma vez. E se ele não entender, foda-se, porque uma das maiores verdades da humanidade é que a fila anda.

Sim, em situações como essas eles seguem me achando meio louca, mas sinceramente: I don’t care. No momento que você entende que o que você está a fim de fazer é muito mais importante do que o que o outro vai pensar, the world is yours, my friend. Por essas e outras que a passagem do tempo arrasa: não tem preço você adquirir essa compreensão tranquila em relação a coisas que antes eram tão desconfortáveis.

 


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