Acabou o desespero: o prazer da solidão

by: Carol Teixeira -

(texto publicado na minha coluna na Revista Vip)

Estava ouvindo uma música da Kali Uchis e pensei nesta coluna. Enquanto a artista de cabelos rosa como os meus cantava “That’s why I’d rather be a loner / I don’t even want to know ya / I don’t want to be known” [Por isso prefiro ser sozinha / Nem quero conhecer melhor você / nem quero que você me conheça”], sentia que havia algo de familiar.

Observe que a palavra “sozinha” não foi dita no sentido negativo. Eu entendo essa solidão agradável da qual ela fala. Eu mesma já tive momentos em que comecei a me assustar com o prazer que sentia em chegar em casa e me sentar bem quentinha pra ler um livro ou assistir a um bom filme ou cozinhar ouvindo um som bom enquanto pensava na vida. Claro que são fases, tem momentos que uma companhia nesse quadro que eu descrevi seria bem-vinda.

Mas o fato é que as mulheres estão muito bem sozinhas e não está fácil tirá-las de casa ou da rotina de suas solteirices confortáveis e leves. De repente saiu de cena a mulher desesperada pra casar ou pra namorar e entrou essa nova mulher que quer, em primeiro lugar, ser bem-sucedida, mas sem escravidão (precisa ter tempo para seu próprio lazer) e que não troca seu Netflix de pijama ou um jantar divertido com amigos por um date qualquer. Por “date qualquer” leia-se um encontro em que o esforço para se interessar e ser interessante acabe não compensando o sexo médio e sem intimidade com um orgasmo que seria melhor se provocado pelo próprio vibrador.

Então esse certo desapego e leveza que você vê nas mulheres contemporâneas (não em todas, claro, mas certamente na maioria bem-sucedida, especialmente das grandes metrópoles) e que tem sido interpretado como se a mulher estivesse querendo ser igual ao homem cafajeste do passado, é, na verdade, mais um clima bitch don’t kill my vibe. Uma autossuficiência e um prazer com ela mesma que fazem com que não esteja disposta a topar chateação ou um relacionamento insatisfatório só pra ter alguém. A mulher pós-moderna não quer ser incomodada, não quer gente atrapalhando a felicidade dela. Ela ainda quer o amor (quem não quer?), mas não a qualquer custo. A geração dos 20 e dos 30 e poucos anos já cresceu numa era pós-feminista, os exemplos maternos já foram outros. Isso mudou tudo. E as outras gerações que não tiveram esse background foram se inspirando nessas mulheres – e o cenário que temos hoje é esse.

O lado bom disso tudo é que, quando essas mulheres se relacionarem com você,  não será porque precisam – mas porque elas querem. Isso faz toda diferença.


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