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Bitch (Editora Record, 2016)

Há livros que chamam atenção do leitor pela capa. Outros, pela orelha. E há aquelas obras com inícios memoráveis, que prendem o leitor de cara. Em “Bitch”, todos esses elementos estão presentes, a começar pela foto da capa, a orelha de Xico Sá e a frase de abertura, na qual Carol arrebata: “Deleuze disse certa vez que, se você não captar o ponto de demência, o pequeno grão de loucura de uma pessoa, você não pode amá-la de verdade”. Mas, a autora dá um outro recado, ainda no fim desse primeiro capítulo: “Pare o julgamento que você está fazendo agora. Não se engane com esse início erudito e pretensioso. Entre a metafísica e a putaria, eu fico sempre com a putaria.”

A história parte então, desses dois pontos: a personagem principal, Princess, é uma artista plástica de São Paulo que passa as férias no Sul da França, no iate da família, curtindo uma vida hedonista, ligada à arte e ao sexo. A narrativa é intercalada com a história de C., uma escritora também sem inibições, que precisa se isolar para escrever seu novo livro. Com cenas provocantes de sexo e reflexões filosóficas e literárias, as duas se relacionam com seus amantes, amigos, família e namorados e têm um encontro seminal e metalinguístico na história.

Os personagens femininos são fortes. A avó de Princess, por exemplo, é uma famosa artista plástica, cuja liberdade influencia a arte da neta. O sexo, na narrativa, é descrito como uma via de poder da mulher. “É um livro de buscas femininas mas que fogem do clichê. Não é um conto de fadas, não é uma história de amor, porque, ao contrário do que nos fizeram acreditar, não é só isso que a mulher busca. A mulher não precisa deixar de ser sensual e usar sua sexualidade porque precisa ‘ser respeitada’. A Princess representa muito essa minha ideia que tem sido um statement na minha vida. Claro que quem detém o desejo do outro está no poder. E o poder da mulher é subversivo sim, não podemos temer ele em sua totalidade (que passa pela sexualidade)”, afirma Carol em entrevista para o blog da Record, que pode ser lida no link: CLIQUE AQUI

Orelha (Por Xico Sá)
“Logo de cara, Bitch apresenta suas credenciais afetivas e nos arrasta para o banquete dos sentidos: ‘As pessoas só têm charme em sua loucura: eis o que é difícil de ser entendido.’ A citação do filósofo Deleuze guia a largada de Carol Teixeira em uma prosa que nos faz, comovidos leitores, ora cúmplices, ora voyeurs.

Os personagens, em uma dança entorpecida, revelam essa suspensão da sanidade e exibem o ‘pequeno grão de loucura’. Naturalmente… Ou, em muitas vezes, com rasgos de um certo esnobismo da escola de Oscar Wilde. Princess é o batismo do charme.

Bitch nos fala com a voz de um Tom Waits em uma manhã de inverno. De ressaca. Depois de uma noite ‘after hours’ movida a bourbon, encontros & desencontros. Em momentos de insustentável leveza, Bitch nos sopra o pianinho do início de ‘I get along without you very well’, do Chet Baker. A trilha do livro é uma obra à parte. Dá pra ouvir a agulha regendo os vinis na vitrola.

“Os cabelos vermelhos de Princess reluziam ao sol da tarde de Saint Tropez como em uma foto com a saturação exagerada no Photoshop”. O roteiro, em imagens lindamente construídas como nesta descrição, vai do très chic francês a uma noitada entre o bar do Bahia e o Inferno, no Baixo Augusta paulistano. Com passagem pela Vila Madalena e sua geografia papo cabeça.

Bitch é Bataille e os filmes amadores no Xvideos. Tivesse eu que escrever aquelas frases breves e escandalosas, como nos cartazes de filmes, registraria em letras calientes: Este livro é um tesão.”

 

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Verdades & Mentiras (L&PM, 2006)

Orelha (por Juremir Machado da Silva)
“ Está tudo dito por ela mesma: ‘Eu também não vim ao mundo a passeio’. Carol Teixeira veio ao mundo para se divertir. E para divertir os outros. Isso dá trabalho. Viver exige tempo, dedicação e ousadia. Quem gosta, nunca tira férias da vida. Nem cobra pelas horas extras. Jovem, linda e formada em filosofia, com uma frase de Nietzsche (ou seriam várias?) em alguma parte do corpo, ela é uma aporia. Isso mesmo, uma aporia. Fui claro? Além, obviamente, de ser um monte de outras coisas mais simples filosófica e existencialmente: um paradoxo, uma mulher de bem com a vida, uma pessoa disposta a apostar tudo na intensidade de cada dia, uma escritora talentosa, um axioma e muito mais. Principalmente muito mais. Ah, ia esquecendo, é colorada, convertida ao futebol num ritual acontecido no templo da Bombonera, em Buenos Aires, por ocasião de um confronto (melhor esquecer!) entre Internacional e Boca. Agitadora cultural, apresentadora de programa de rádio, dona de bar e viajante incansável, Carol já tem um pouco de mito. Verdade ou mentira? Ficção ou realidade? Nada disso. Carol é pós-moderna, quando não é hipermoderna ou pós-tudo, e não acredita nessa dicotomia do “ou…ou”. Com ela, no melhor estilo “quero experimentar de tudo na vida”, impera o “e…e”. Duvidam? Então leiam este “Verdades e mentiras”, livro composto de duas partes antagônicas e complementares, “Verdades (?)”, crônicas, e “Mentiras (?)”, contos. O pontinho de interrogação está aí para confundir mesmo. O negócio é dar um nó na cabeça do leitor sem que ele queira ser desatado. Afinal, o que é a realidade? Onde termina uma e começa outra na vida de alguém determinada a escrever o seu próprio destino? Não será a realidade a maior de todas as ficções? Certeza, certeza, só uma: Carol Teixeira manda bem no conto e na crônica, o que não é para qualquer um. Consegue aliar leveza, humor, ternura, paixão, ironia e entusiasmo sem demonstrar estar fazendo esforço algum. No conto, narrativa que exige tensão permanente, ela não perde a linha nem a forma, conduzindo o leitor na ponta dos dedos e dos pés ao longo de uma passarela (que pode ser de uma São Paulo Fashion Week ou uma dessas que terminam na frente de uma rodoviária) cheia de surpresas e de reviravoltas. Como dizem os franceses, não sente frio nos olhos e arrasa nas descrições de cenas calientes. Pero, com muita sofisticação. Não seria exagero dizer que ela lembra Zelda Fitzgerald? Só que Zelda era louca. Carol, que eu saiba, é louca pela vida. Enfim, eis a manchete: tem escritora na praça. Verdade ou mentira? É só conferir para ver.”

 

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De Abismos & Vertigens (Editora Sulina, 2004)

É o diário da escritora daquela época com fragmentos de pensamento sobre os temas que a inquietavam. “Um livro pós-adolescente”, como ela gosta de classificar, “tão sincero que mais parece um grito”.