Entrevista para a Revista da Livraria da Vila sobre meu novo romance Bitch

by: Carol Teixeira -

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Como vocês já devem saber, na próxima segunda-feira (20) vou lançar meu novo livro, BITCH, pela Editora Record, com sessão de autógrafos na Livraria da Vila da Lorena, aqui em São Paulo. Conversei com o pessoal da revista da Livraria da Vila sobre o livro, meu processo criativo, o mundo pós-feminista, sexo e tudo isso que a gente ama falar (e fazer).

Confira aqui a entrevista na íntegra:

Bitch (Record) é o nome do romance que Carol Teixeira autografa na Livraria da Vila da Lorena no dia 20 de junho, a partir das 19 horas. Filósofa, DJ, vocalista e baixista da banda Brollies & Apples, colunista da revista VIP, Carol já publicou De Abismos e vertigens (Ed. Sulina) e Verdades & mentiras (L&PM), escreveu duas peças de teatro e mantém o blog A obscena senhorita C, título inspirado no livro A obscena senhora D, de Hilda Hilst, que Carol ama. Sexo, desejo, amor e a falta de comunicação entre homens e mulheres são alguns dos temas prioritários de Carol, que nasceu no Rio de Janeiro, cresceu em Porto Alegre e vive em São Paulo, cidade que, como ela diz, reverbera na mesma frequência que ela, que acredita “em um pós-feminismo afirmativo que ainda está por vir, uma era de menos discurso e mais ação”. Personagem dela mesma, de espontaneidade cativante e fluência animadora, Carol concedeu a seguinte entrevista a Vila Cultural:

Vila Cultural: Qual foi a maior dificuldade e o grande prazer ao escrever Bitch e quanto tempo levou da ideia original ao texto final do livro?

Carol Teixeira: Eu levei um ano para escrever o livro. Foi um processo muito denso, mergulhei em questões muito profundas ali. Escrever um romance é aquela esquizofrenia autorizada, né? Todo mundo ao meu redor dizia que eu estava estranha durante esse processo. Como eu não estaria estranha com aquele bando de personagens complexos me atormentando? Então não foi necessariamente um prazer escrever esse romance, foi uma dor, uma dor boa, tipo a dor da tatuagem. No fim, o livro acabou ficando muito mais profundo do que eu planejei, mas como diz o escritor Ernesto Sabato, “os propósitos são sempre superados pela obra”. Isso é o bonito da arte, esse descontrole, o momento em que você percebe que não era mais você que mandava naquilo. Quando acabou eu senti um prazer absurdo justamente por me sentir dominada por algo que eu não controlava.

VC: Como definiria a personagem Princess?

CT: Ela é uma artista plástica jovem e linda, mas insatisfeita. Ela quer mais e mais, quer ser levada ao limite, quer bagunçar aquela vida perfeita, quer transcender os conceitos – mesmo que isso signifique estragar a vida dos outros ao seu redor. Ela é uma apocalíptica dentro dos integrados.

VC: Ainda que personagem C., a escritora, seja evidentemente seu alter ego, o que há de você em Princess?

CT: Assim como ela, eu tive uma criação burguesa e tradicional, mas me tornei uma artista subversiva em certos aspectos. Sempre tive essa ânsia por “sujar” a perfeição, que é justamente o que ela vive no livro. E, como ela, também perdi meu pai, que morreu muito cedo, e levo na minha história a marca da ausência paterna – detalhe também importante no romance, já que todas as mulheres do livro têm isso em comum.

VC: Como descobriu sua vocação e sua habilidade para falar e escrever sobre sexo?

CT: Sou fascinada pelo erotismo desde sempre. Sou leitora de Bataille, Henry Miller e Anaïs Nin desde muito cedo. Adoro arte erótica, quadrinhos tipo os do Milo Manara também. Me formei em Filosofia e na minha monografia já abordei um tema que gosto muito: “A sexualidade como afirmação de vida”. Tenho um modus operandi totalmente dionisíaco e isso me leva sempre para a questão do corpo. O corpo como instrumento para a transcendência. Assim como para Bataille, o erotismo é sagrado para mim. Isso nos leva para a sexualidade, é inevitável. Sempre tive curiosidade em relação ao tema. Foi natural que minha escrita expressasse esse meu interesse.

VC: Sofre algum tipo de preconceito ou julgamento ao assumir essa atuação?

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CT: Se existe preconceito, ele não chega até mim. Sinto muito mais curiosidade das pessoas em relação ao que escrevo (ou pelo fato de eu me expor bastante) do que algum tipo de julgamento. Mas eu não ligo para julgamento. Se eu tivesse ouvido metade dos conselhos que já me deram, eu não teria feito nada do que fiz nem escrito nada do que escrevi. Ouvir demais a opinião dos outros (que quase sempre segue o senso comum, o seguro) nos desvia do nosso caminho. E isso é uma violência para um artista.

VC: Como você entende e estabelece o limite entre o que é público e o que é privado na sua vida pessoal ou profissional?

CT: Tenho poucos limites nesse sentido. Misturo minha arte e minha vida o tempo todo, concordo com Henry Miller que diz que “moral e estética fazem apenas um”. Gosto disso. O que conto numa mesa de bar entre amigos conto tranquilamente também nas minhas colunas, no blog ou nas minhas redes sociais.

VC: Como e por que decidiu usar sua própria sua imagem – as fotos, os vídeos, tudo que é visual, enfim – no seu trabalho criativo e intelectual?

CT: Desde criança as artes se misturam para mim. Eu tocava piano, desenhava, dançava, e quando aprendi a ler fiquei obcecada com palavras e elas acabaram roubando a cena na minha vida. Mas com o tempo a necessidade de outras expressões artísticas estão voltando cada vez mais. Por exemplo, nos últimos meses estou trabalhando com o artista italiano Franz Cerami numa instalação de vídeos inspirada no meu livro Bitch. Fizemos alguns outros trabalhos, ele leu meu livro e tivemos a ideia dessa instalação.

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VC: Como define a literatura e o texto erótico e quais são os seus autores favoritos neste segmento?

CT: Literatura erótica precisa, antes de tudo, excitar. Mas precisa ser literatura também, não só entretenimento. Meu objetivo com esse romance foi fazer algo cru do ponto de vista sexual (minhas descrições são bem pornográficas) mas elaborado do ponto de vista psicológico (o livro tem um viés bem filosófico também). Meus autores preferidos são Georges Bataille e Anaïs Nin. Gosto também da pornografia da Hilda Hilst, acho ousada, adoro gente que perde o limite.

VC: O que é ser uma mulher transgressora num tempo ao qual você se refere como pós-feminista e pós-moderno?

CT: A gente vive um tempo em que até a transgressão é incorporada pelo establishment e vira um produto em embalagem bonitinha. Mas acho que em qualquer época é transgressor (e raro) se atrever a colocar seu discurso em prática na sua vida, ainda mais sendo mulher. Nem todo mundo banca se atrever a ser um exemplo do que se acredita porque isso implica os tais julgamentos e preconceitos que nem todos aguentam segurar.

VC: Você diz que vivemos a “ditadura da putaria”. Por quê?

CT: Sim, sempre falo isso. Vejo que de repente virou muito cool ser louquinho sexualmente, dizer “topo todas, faço de tudo”, vejo adolescentes achando que têm que fazer jus a essa hipersexualização que vivemos. Falei muito sobre isso com a Sasha Grey, quando a entrevistei. Precisamos respeitar as vontades individuais, sexo é muito particular, não tem certo e errado, você não precisa fazer o que a pornstar faz pra ser boa de cama.

VC: Poderia, por favor, falar sobre a questão do sexo seguro para viver a liberdade sexual?

CT: Quando você fala sexo seguro imagino que esteja falando da camisinha, né? Sim, acho esse o único cuidado que se precisa ter, o único. De resto, sou a favor de uma sexualidade sem limites. O que estraga o sexo é que as pessoas insistem em colocar implicações românticas e morais (ou pior, racionais) numa coisa que é tão natural e linda como o sexo. Por isso que escrevo no final do primeiro capítulo do livro, depois de filosofar profundamente sobre a questão do corpo: “Não se engane com esse início erudito e pretensioso. Entre a metafísica e a putaria, eu fico sempre com a putaria”. É isso. Viva a putaria!


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