“Esse pau é dela”

by: Carol Teixeira -

(foto da expo Made in Heaven, de Jeff Koons)

 

No ano passado eu estava na exposição Em Nome dos Artistas que rolou na Bienal aqui em SP com obras de Damien Hirst, Cindy Sherman, Jeff Koons e vários dos meus artistas contemporâneos preferidos. Fui mais de uma vez e, na segunda, participei de uma visita guiada especial para as obras que abordavam a temática sexual. Foi então que me deparei com parte da exposição Made in Heaven, um dos trabalhos mais interessantes do Jeff Koons. Eram vários quadros nos quais o próprio artista era retratado em fotos pornográficas com sua mulher (na época da obra), a bela e polêmica atriz pornô Cicciolina, ambos nus ou semi-nus. Parei na frente de um quadro específico (imagem acima) no qual Cicciolina, com as pernas abertas, segurava e lambia o pau duro de Jeff Koons. Valter José, uma das pessoas que guiavam essa visita, figura interessantíssima (diretor de filmes pornôs e filósofo com pós-doutorado na USP), analisando semioticamente a imagem, disse: “Nada nessa imagem pertence a ele; esse pau é dela, ela é a dona desse pau”. Realmente diante de Koons em estado de êxtase e entrega total, nada na foto parecia estar sob o controle dele.

 

Lembrei ali do que eu sempre falo: quem detém o desejo do outro está no poder. Cicciolina, num suposto papel submisso, quase ajoelhada diante de um homem, tinha ali na mão o controle do poder imediato do erotismo. Me refiro a “poder imediato” porque quando nos deparamos com algo erótico que nos excita, o poder que aquilo exerce sobre nós não passa pela mediação da razão: não controlamos nossos batimentos cardíacos mais acelerados, não controlamos a respiração alterada, a excitação, nosso corpo reage de forma alheia à nossa vontade e racionalidade. Essa é a beleza do erotismo. E esse é também seu poder subversivo. E a mulher sempre foi a personificação desse erotismo. Por isso todas as sociedades ao longo da história batem cabeça tentando lidar com o poder subversivo do erotismo feminino. Em alguns países a negam ou a escondem demais, em outros, rola uma superexposição. Nunca foi uma questão tranquila. Mas, voltando à questão Cicciolina & Jeff Koons: O pau duro dele, por ela, era a rendição dele, não dela. Essa é sempre a imagem que vem à mente quando vejo algumas feministas mais radicais criticando mulheres que se expõe sensualmente em revistas, filmes ou na vida pessoal como se elas estivessem submissas, num papel de objeto. Pra mim é o inverso. E acredito tanto nessa ideia que a quero como tema da minha tese de mestrado, que vai tratar, entre outras coisas mais específicas, do poder da mulher como objeto sexual. Porque ali, como suposto objeto,  ela está na posição de sujeito ativo e dominante. Ela detém o desejo, ela detém o poder, o pau duro é dela.

 

A negação do erotismo feminino pra se obter respeito, a insistência nessa dicotomia beleza OU inteligência, tudo isso, do modo como eu vejo as coisas, é muito mais machista do que, voluntariamente, por escolha própria, expor o corpo de alguma forma. Estar de acordo com um mundo machista e patriarcal é se encaixar nesse sistema de OU ser um adorno belo feminino OU ser uma mulher de ideias que reprime seu poder erótico e critica quem não o reprime. Eu vou ser tudo que eu quiser. Essa é a grande conquista do feminismo: o poder de escolha. E a grande virada para um pós-feminismo, eu diria, é a aceitação de todos os nossos arquétipos e poderes, sem retrocessos nas conquistas. Pra mim, a mulher não se expor sensualmente sob risco de não ter suas ideias respeitadas seria um grande retrocesso. E não aceitar seu poder arquetípico feminino também. Seria apenas mais uma prisão na qual ela não escolheu se colocar.

 

Como naquele caso da mulher que uma vez criticou o fato de Madonna estar acorrentada no clipe de Express Yourself. Madonna – que fez mais pelo feminismo do que muitas feministas – respondeu: “But I chained myself. I’m in charge”. Ela tinha se acorrentado. Ela estava no controle. Faz toda a diferença. A consciência e a escolha são itens que fazem qualquer objeto virar sujeito.