Eu, Beyoncé e o feminismo

by: Carol Teixeira -

bey     Já falei aqui no blog algumas vezes sobre minha posição pós-feminista (nesse texto aqui. E nesse outro) e minhas discordâncias com o feminismo mais radical e a maneira com a qual ele lida com certas questões. Todo pensamento de alguém vem obviamente de uma vivência, de uma série de experiências que formam a ideologia de um indivíduo.

 

E eu cresci num ambiente muito girl power. Tinha 3 anos quando meu pai morreu, então eu – caçula da família – e minha 3 irmãs fomos criadas pela supermulher que é minha mãe. Ela nunca reclamou de ter que lidar com a dificuldade (psicológica e financeira) que é criar sozinha quatro filhas, nunca vi nela um sinal de fraqueza ou algum ressentimento por ter que segurar aquela barra sem ajuda de ninguém. Era um matriarcado, com valores matriarcais que não eram verbalizados, simplesmente existiam – o patriarcado não tinha vez ali. Cresci sem pai e nenhuma figura masculina, não fiz substituições porque elas não foram necessárias. Então nunca esteve em questão pra mim o poder feminino, eu simplesmente SABIA que a mulher era um ser extremamente poderoso. Era assim e fim de papo. Isso gerou uma suavidade e uma posição não combativa da minha parte em relação a essa discussão sobre gêneros. Eu olhava ao meu redor e via mulheres poderosas, mulheres que não se vitimizavam, logo essa foi minha postura perante o mundo. Me tornei desde pequena uma pessoa que pensa que discursos são muito fracos se não associados com ações. Eu sempre quis ser um exemplo, não alguém que pede. Essa minha atitude gerou um respeito ao meu redor. O mesmo que minha mãe tem, que minhas irmãs tem, o que me fez entender que ser é mais eficiente que gritar.

 

Minha maneira de ser feminista é essa: agir como mulher no mundo da maneira que acho certa, é escolher de acordo com meus valores, é exercer meu poder feminino em todos seus prismas (inclusive o sexual, sem reprimi-lo em busca de maior respeito) e naturalmente fazer com que as pessoas que me rodeiam vejam o poder e respeitem. Eu não fico gritando por respeito, eu simplesmente ajo de forma que o respeito inexoravelmente aconteça.

 

Por isso fico tão feliz de ver na mídia mulheres como Beyoncé. Eu nem sabia que ela participaria do VMA, premiação da MTV que rolou ontem, e que faria essa tão comentada apresentação, mas casualmente assisti no fim da tarde o documentário dela “Life is but a dream”. O filme mostra vários lados dela e trabalha bem esse contraste do poder hipnótico que ela exerce no palco com sua voz e seus potentes rebolados e o lado doce de mãe e esposa apaixonada que valoriza a família, que se permite ser mulherzinha sem a necessidade de botar o pau na mesa o tempo todo.   Esse mix de vulnerabilidade real com o poder da persona pública (e da mulher de negócios no controle de seu império) me fez pensar: no mundo pop Beyoncé representa a mulher pós-feminista que materializa meus pensamentos sobre o assunto. O poder da mulher que se permite viver uma força que não é igual a da homem, mas que vem da aceitação de uma feminilidade arquetípica e desse poder em sua totalidade. Uma mulher que se permite escolher e bancar suas escolhas de uma forma afirmativa e não-combativa. E agir ao invés de só falar. Na minha opinião, nisso consiste a verdadeira badassness.

 

Foi o que vimos ontem quando ela, poderosa, numa apresentação apoteótica de 20 minutos, cantou sua música ‘Flawless’ com samples do discurso lindo da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi:

 

“Nós ensinamos garotas a se encolherem, a se diminuírem. Nós dizemos às garotas: ‘Você pode ter ambição, mas não muita. Você deve almejar o sucesso, mas não muito sucesso. Caso contrário, você ameaçará o homem’. Por eu ser mulher, esperam que eu sonhe com casamento. É esperado que eu tome decisões pra minha vida tendo sempre em mente que o casamento é o mais importante. Agora, casamento pode ser uma fonte de alegria e amor e apoio mútuo. Mas por que ensinamos garotas a desejarem o casamento e não ensinamos o mesmo aos garotos?   Nós criamos garotas para verem umas as outras como competição. Não por trabalho ou sucesso, o que eu acho que poderia ser algo bom. Mas sim competição pela atenção dos homens. Nós ensinamos que garotas não podem ser seres sexuais do mesmo modo que garotos são.   Feminista: uma pessoa que acredita na igualdade social, política e econômica entre sexos”.

 

Uma celebração linda e poderosa do feminismo. E ela causou no palco e depois chorou e depois se declarou para o marido e a filha. Ela nem precisava levantar essa bandeira porque a maneira como ela vive já traduz isso, mas não pude deixar de me emocionar com aquela imagem dela sozinha no palco com a palavra FEMINIST gigante no telão.   eu-beyonce-e-o-feminismo

Era isso. Nada mais precisava ser dito.

 

Fico feliz de ver que o mundo, aos poucos, está parando com o slut shaming, com ideias ultrapassadas que endossam a dicotomia machista do sexy-OU-inteligente/talentosa e está começando a entender o que é o pós-feminismo de verdade.

 

Respect that. Bow down, bitches, bow down…

 


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