Eu e David Bowie

by: Carol Teixeira -

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Desde criança sempre me fascinaram os indefinidos, os misfits, os que não se encaixam totalmente no status quo. Ser um inadequeado me parecia uma opção mais criativa de se viver num mundo onde todas as cartas já pareciam estar dadas. Poder ser encaixado na compreensão do outro é poder ser definido e poder ser definido é poder ser dominado. O filósofo Hegel escreveu bem sobre isso em sua dialética: tendemos à negação do outro por representar essencialmente uma ameaça ao nosso eu – então temos essa necessidade obsessiva de definir os outros porque isso nos parece menos ameaçador.

Mas existem seres mágicos que simplesmente não conseguimos colocar em nenhuma caixinha com etiqueta. David Bowie foi um desses.

Por isso fiquei tão arrasada com sua morte, muito triste o mundo perder um ser assim. Sempre amei ele e o tive com um dos maiores exemplos de liberdade: porque Bowie vivia o conceito (e eu só respeito quem realmente VIVE os conceitos, discursos sem ação não significam muito pra mim), vivia o conceito da vida como obra de arte. Você tem ideia do quão poderoso isso é? A existência justificada como fenômemo estético no corpo de um artista, o próprio corpo como plataforma de sua arte.

Tudo isso sempre me tocou mais do que a música dele. Por mais que eu ame a música de Bowie e a tenha como trilha sonora de momentos lindos da minha vida, foi sempre essa pegada filosófica dele que me encantou e inspirou mais.

Eu nunca quis ser definida porque não queria ser dominada no meu livre arbítrio da existência. Se você não é definido, tudo é possível: você tem licença poética para ser louco, bizarro, pra transcender os conceitos sem que ninguém o questione. Sempre almejei essa liberdade, corri atrás dela conscientemente a vida toda. E eu via tudo isso em David Bowie.

 

Pensando aqui nele lembrei de Antonin Artaud que dizia que a arte deve deixar claro ao espectador que ele terá contato com uma operação verdadeira onde não somente seu espírito mas seus sentidos e sua carne estão em jogo. Ele escreveu: “Se não estivéssemos persuadidos de atingi-lo o mais gravemente possível, nós nos consideraríamos inferiores a nossa tarefa mais absoluta. Ele deve estar persuadido de que somos capazes de fazê-lo gritar”

Sempre me arrepio lendo essas palavras de Artaud. E se aplica totalmente à arte de Bowie, uma arte epifânica, que te desloca (toda arte precisa criar esse deslocamento interno), uma arte que te faz gritar.

 

Desculpem esse texto estar tão sobrecarregado de citações e referências a pensadores, mas isso é apenas mais um efeito que David Bowie provoca e prova que sua influência vai infinitamente além de sua música – chamá-lo de músico seria eufemismo. David Bowie foi um ARTISTA com letras maiúsculas piscando em neon.

Que tenhamos a coragem de ousar. É a melhor maneira de honrar a passagem corajosa desse mestre por esse mundo

 


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