Falta virilidade a Christian Grey

by: Carol Teixeira -

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(meu texto sobre o filme 50 Tons de Cinza publicado hoje na Revista Donna do Jornal Zero Hora)

 

Preciso começar confessando que, embora não ame tanto o livro 50 Tons de Cinza, sou a maior fã do Christian Grey, o sexy e atormentado personagem cobiçado por 100 entre 100 mulheres que leram o best seller. Talvez porque eu tenha uma tendência a relações cujas profundidades psicológicas começam primeiro através de uma forte e inevitável química sexual. Ou talvez simplesmente porque Christian Grey seja lindo, intenso, poderoso, bom de cama, melancólico (adoro) e ainda toque piano – e agora esteja materializado no Jamie Dornan! Como não amar? Mesmo não curtindo tanto o livro e tendo ido no contrafluxo desse hype, lembro que pensei na época que li que bom mesmo seria quando virasse filme porque é tão mais hollywoodiano do que literário. Então a priori já tinha simpatizado mais com a ideia do filme do que com o livro.

 

Eis que hoje confirmei minha expectativa. Gostei do filme que, com algumas exceções, entrega às mulheres exatamente o que as encantou na triologia. Ele começa totalmente fiel ao livro, com uma bem construída tensão sexual entre Dakota Johnson (a talentosa filha de Melanie Grifth, perfeita no papel da doce Anastacia Steele) e o muso todo poderoso Christian Grey, lindíssimo na pele do ator Jamie Dornan.

 

Sim, tem algumas boas cenas de sexo (você estava só esperando para ler sobre isso né?). Tem uma virada brusca seguida de um tapa na bunda que Christian Grey dá em Anastasia (na primeira vez que ele amarra ela na cama) que você certamente vai querer imitar na próxima noite. E algumas outras coisas do universo sadomasoquista que eles fazem e você vai usar como inspiração mesmo sem ter os mil objetos do Quarto Vermelho da Dor. Não duvido que BDSM vire tendência secretamente nos quartos por aí, viu (“Quando você abre mão do controle você se sente livre”, diz Grey. Hum. Fica pra pensar.) Mas, na minha opinião, faltaram as sacanagens sussurradas que eram tão presentes no livro. Eu achava excitante essa coisa de eles serem tão verbais no sexo, então senti falta. Ah, e pode se preparar, a gente sai do cinema no mesmo estado que fica quando acaba de ler a obra – querendo desmarcar todos os compromissos e se jogar numa louca noite libertina. Só não fiz isso porque tinha que escrever esse texto.

 

Mas, falando ainda sobre o sexo no filme, embora tenha cenas boas, ainda acho que uma obra que teve o erotismo como ponto central merecia um tratamento mais corajoso e explícito do tema, algo na linha de um Azul é a Cor Mais Quente. Mas a opção foi baixar alguns vários tons, tanto no erotismo quanto na agressividade das cenas sadomasoquistas (que já são leves no livro).

 

Outra coisa que lamentei: justamente quando o filme deveria crescer, ele enfraquece. Senti isso na cena que ele pune ela pela primeira vez, logo após a formatura. No livro é um turning point, o momento no qual ele apresenta na prática o que seria a punição. No filme se resume a três batidas sem visceralidade nenhuma. O que apresenta outro problema: Dakota é muito melhor que Jamie dramaticamente. E essa diferença, que não fica tão evidente na primeira metade, grita ao passo que filme avança e pede atuações mais complexas. Falta virilidade na maioria das chibatadas, falta tesão na maneira como ele tira a calcinha dela e cheira (essa cena poderia ter sido bem mais erótica). Fiquei com vontade de dizer “Bate direito!”, “Cheira direito essa calcinha!”. Enfim, falta um pouco da perversão & safadeza que Christian Grey no livro tem em cada ato descrito e palavra sussurrada. E falta a sutileza da ambiguidade do personagem que no livro é tão explorada e tão erótica – lembro Milan Kundera que diz em “Imortalidade” não existir erotismo autêntico sem ambiguidade. Concordo plenamente.

Mas Jamie Dornan é muito bonito, bonito do tipo de-tirar-o-folêgo e isso segura a onda e faz você perdoar essas coisas ou talvez nem perceber porque está hipnotizada demais.

 

E sobre as críticas do livro – que certamente vão se estender para o filme – de que é um conto de fadas bobo travestido de romance erótico, etc, apenas digo: é conto de fadas mesmo e daí? Relaxem e gozem, gente. Se querem algo mais erudito e mais forte tem Marquês de Sade, Anais Nin, Bataille e grandes clássicos do gênero. Vamos torcer nossos narizes eruditos em outro rolê mas vamos parar de falar mal de uma obra que fez com que as mulheres consumissem livros eróticos mais confortavelmente, que fez com que um tema antes tão underground como o BDSM fosse discutido por todos, de donas de casa a adolescentes, que virasse papo em mesa de jantar. Viva a popularização do erotismo.

 

Corre pro cinema pra assistir. E eu vou acabar logo esse texto porque aindo estou sob efeito dos 50 tons de causação desse filme e quero aproveitar.


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