A insustentável leveza do sexo

by: Carol Teixeira -

(texto publicado na minha coluna da Revista Vip)

  

Recentemente fui morar em outra casa e, na mudança, entre as preciosidades que nunca mais tinha visto, encontrei meu trabalho de conclusão de quando me formei em Filosofia, em 2005. Já escrevia naquela época sobre assuntos que até hoje são meus preferidos: sexo, amor e a difícil arte de se relacionar. Ali eu citava muito Zygmun Bauman e sua teoria do Amor Líquido (o amor frágil, medroso e efêmero de nosso tempo). E lembro que na época eu previa uma melhora na liquidez das relações, achava que em algum momento esse quadro mudaria devido a uma inevitável ressaca de tanta falta de consistência. Em meio a bagunça das caixas, sentei para ler uns trechos e refletir sobre isso (nunca subestime a profundidade das reflexões que surgem no meio de uma mudança, são poderosas devido às nostalgias e vulnerabilidades que aparecem nesse processo). Concluí que infelizmente tudo só piorou nesse setor desde então, nunca estivemos tão ‘líquidos’.

Quando foi que desaprendemos a amar? Porque amar não é pular fora no primeiro problema (independente da magnitude). Amar exige cuidado, cultivo, tolerância, entrega, empatia. Perdemos a paciência de lidar com o outro – esse ser com uma bagagem de vida completamente diferente da nossa, esse ser com uma vida interior que não controlamos, com vontades próprias. Difícil demais, preferimos ficar na segurança da nossa individualidade, da nossa solidão tão conhecida e não ameaçadora na qual podemos lidar com as questões ou simplesmente jogar para baixo do tapete sem que ninguém interfira. Na relação, quando surge um problema, é como se estivéssemos diante de um texto longo demais na internet com o qual você perde a paciência no meio e pula para outro que seja mais rápido, mais simples & objetivo – e que te permita passar logo para outro. Porque você não pode perder tempo se aprofundando, se estressando, você tem que….fazer o que mesmo? Vivemos num mundo em que tantos tem preguiça de amar, tantos perdidos, como diz Bauman, na ‘insustentável leveza do sexo’. Acho muito triste perceber isso. Porque é através dos desafios que o outro – simplesmente exercendo sua alteridade – nos traz que descobrimos capacidades novas, lados novos em nós mesmos, novas visões sobre o mundo, sobre nossas próprias trajetórias e traumas.

Jung disse que o outro é para nossos seres subjetivos como uma moldura para um quadro: uma moldura branca num determinado quadro realça certos tons da obra; já uma preta realça tons completamente diferentes. Assim é nas relações, especialmente nas que tem intimidade, essa coisa que tem nos assustado tanto. Nos privando desse aprofundamento por preguiça, medo ou simplesmente costume com essa dinâmica ao nosso redor, estamos nos privando de realçar cores diferentes dentro de nós, ressignificar certezas , rever opiniões, evoluir. Torço para que essa ressaca que mencionei venha rápido e que consigamos perder o medo do amor, essa coisa que se tornou, como já disse Roland Barthes,mais obscena do que o sexo para nossa sociedade.

 

 


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