Kate Moss e a dialética da causação

by: Carol Teixeira -

Sempre tive uma tendência a ter como exemplo gente transgressora. Pessoas que transcendem os conceitos sempre tiveram minha admiração incondicional. Por isso adoro gente tipo Hilda Hilst, Tarso de Castro, Hugh Hefner, Angelina Jolie na época causadora, Madonna, Marina Abramovic e tantas personalidades que me encantaram sendo apocalípticas dentro dos integrados.

 

Lembro do escritor Aldous Huxley em The Doors of Perception (livro que inspirou Jim Morrison, outro transgressor apaixonante, a criar o nome da banda), falando que quando tomou mescalina atingiu um mundo que transcendia rótulos, noções e palavras. E lembro que ao ler esse livro, muito cedo na minha vida, eu pensei que um dos meus objetivos na vida seria esse – não o de tomar mescalina, mas o de ir além de rótulos, noções e palavras. Era assim que eu queria existir.

 

E ser um misfit passa pela imperfeição. Porque quando a gente busca a perfeição, inevitavelmente se distancia da nossa humanidade e se encaixa em algo pré estabelecido, caixinhas com etiquetas que a sociedade cria pra que as coisas fiquem mais compreensíveis. E ser compreensível é muito chato. Compreender é uma forma de dominar. É a dialética hegeliana (acordei filosófica hoje, me deixem). O Outro aparece sempre como uma ameaça e só deixa de ser no momento em que é compreendido e, como conceito, dominado. Então, a meu ver,  não se fazer entender e não se encaixar na obviedade do já existente é a maneira mais corajosa e criativa de existir.  E por isso pessoas assim geram esse fascínio que pode vir na forma de amor ou de ódio mas que vem com uma intensidade que raramente se sente diante das outras.

 

Tudo isso é pra dizer que eu amo a Kate Moss, que está poderosa, aos 40 anos, arrasando na capa da edição de comemoração dos 60 anos da Playboy americana. Ela é o Outro indomável que nos ameaça e encanta, mulher que vive de verdade, com suas próprias regras. Teve caso com o roqueiro junkie Pete Doherty, saiu cheirando cocaína na capa de uma revista, teve uma filha sem nenhum esquema família-perfeita, apoiou o John Galliano na época que o mundo da moda virou as costas pra ele, causou bêbada em inúmeras noites aos olhos de todos, e nunca ninguém deixou de admirá-la. Simplesmente porque pessoas que fazem o que querem com tal segurança são magnéticas, não importa o valor moral de suas ações. E como diz uma música do The Kills (banda de Jamie Hince, atual marido gato de Kate): “It’s not the door you’re using, but the way you’re walking through it”. Levanta a cabeça e vai. Faz toda diferença.

 

Kate Moss é a anti-mocinha ideal. E, com sua vida vivida, nos representa muito mais.


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