La mar

by: Carol Teixeira -

Sempre me achei uma supermulher. Mas não de um jeito egoico bobo tipo eu-sou-foda. Não, era mais no sentido de me sentir capaz de fazer tudo o que eu quisesse, me sentir no poder da própria vida e enxergar o mundo exterior como muito, muito incapaz de me limitar. A vida era minha e estava totalmente no meu controle. Quis escrever sobre sexo de uma forma ousada num país machista como o Brasil? Escrevi e sigo escrevendo. A relação estava ruim? O trabalho estava chato? Eu saía sem olhar para trás. Quis cursar uma faculdade como filosofia, que supostamente não me traria garantia de sustento diante da visão limitada do status quo? Cursei. Todas as ideias para minha arte e vida eram colocadas em prática, nunca considerei nenhuma resistência. My way, my way. Nesse sentido sempre me senti imbatível. Como se nada pudesse me abalar caso eu decidisse ficar intacta.

Então ano passado minha mãe morreu. E pela primeira vez me vi vez sem saída. Dessa vez eu não podia dizer “não aceito isso”, virar as costas e buscar um final diferente. Eu não podia levantar a cabeça, fazer a supermulher e transgredir essa regra. Toda minha formação intelectual existencialista, meus anos de estudo de filosofia, todos os livros lidos não valiam absolutamente nada. Não me explicavam aquilo, não me confortavam. Me senti como na música do Bob Dylan ‘You’ve been through all of F. Scott Fitzgerald’s books/You’re very well read It’s well known/But something is happening here and you don’t know what it is’. Foi um clima meio: e agora Sartre? E agora Heidegger? E agora Nietzsche, o que eu faço diante disso? Me vi vulnerável, olhando pra vida e dizendo: você venceu. Olhando para um corpo morto que dez minutos antes estava vivo, que há pouco tempo tinha ali dentro algo (a alma?) que simplesmente não estava mais lá e pensando: não sei o que é isso, não entendo, só me resta sentir. Isso foi um exercício de humildade epistemológica que mudou minha relação com o mundo.

Existem coisas que racionalmente simplesmente não vamos conseguir explicar. E precisamos sentir. Repito, sentir. Num mundo que é todo estruturado em linguagem, nos acostumamos a não considerar o que não conseguimos nomear, categorizar, encaixar na estrutura do nosso pensamento. Mas é ali, bem ali que está a vida. E se existe alguma espécie de divindade, é nesse mesmo espaço incompreensível que ela se encontra. Como no final da ‘Divina Comédia’ de Dante em que ele encontra Deus e o descreve como ‘o amor que move o Sol e outras estrelas’. E é esse mesmo ‘amor’ que sinto quando escrevo, naqueles momentos fortes de inspiração que me percebo como instrumento de algo que vai muito além do que sou. É o que senti no final do ano, meditando na praia de noite, olhando para a lua cheia em frente ao mar de Caraíva. Depois desse contato tão próximo com a morte passei a respeitar o intangível, a natureza, o sol, os ciclos, tudo aquilo que a gente no fundo não compreende, esse algo inexplicável que fez com o corpo da minha mãe em um momento tivesse vida e em outro não, esse algo que move mares e luas e amores. Passei a sentir as conexões de tudo com tudo, conexões essas que, nesse mundo antropocêntrico, insistimos em subestimar ou que só percebemos sob efeito de alguma droga (logo depois deixando a bela percepção se esvair para dar lugar a nossa bitolada visão cética de sempre). E fiquei permeável, vulnerável. Como eu disse, vencida pela vida, mas só agora percebendo que isso não é algo negativo. Baixei a cabeça em sinal de reverência. E lembrei do livro “O velho e o mar”, do Hemingway, e do respeito que o personagem, um velho pescador, tinha pelo mistério das marés. Num certo momento ele fala que acha bonito o jeito que os espanhóis falam sobre o mar, “la mar”, como se fosse feminino. Ele diz que faz todo sentido, que ele sempre via o mar como algo feminino, uma coisa que concedesse ou negasse grandes favores, dizia que se o mar praticasse selvagerias ou crueldades era só porque não podia evitá-lo. ‘A lua afeta o mar tal como afeta as mulheres’. ele disse.

La mar. La vida. A gente não briga com elas, – como já disse aquela que foi minha pessoa preferida no mundo – temos que encarar. E aceitar com o respeito e a humildade de quem se reconhece um grão de areia que é apenas parte desse todo infinito e incompreensível. Como Dante ou o velho pescador de Hemingway, reverenciando o que não sabemos explicar. E sentindo. Apenas sentindo.


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