Let’s talk about love, mothefucka

by: Carol Teixeira -

lomo

Comprei uma lomo e ainda não consegui fotografar com ela. Não por alguma dificuldade prática – é uma câmera analógica ridiculamente simples – mas por um desconforto que aos poucos foi ficando mais claro pra mim. Era a ausência de controle, descobri. Diante do desafio de registrar com tanto cuidado um momento, sabendo que eu não poderia ver o resultado antes de ser revelado, a coisa toda, inclusive o momento em si adquiriu um quê de definitivo que era demais para minha alminha pós-moderna acostumada com o caráter descartável das coisas. Com os iphones e câmeras digitais tiramos mil fotos, deletamos várias ate achar a perfeita e tratá-la devidamente com um filtro arrasante. Todas as etapas sob nosso controle. Já com a lomo a pessoa se sente obrigada a PARAR e OLHAR. Mas olhar de verdade, enxergar a beleza do que esta sendo fotografado. Porque as outras tecnologias nos afastam da coisa em si.

 

Mas a lomo não. Com cada foto que eu ia fazer vinha junto um peso que me fazia desistir. Ela, com sua aura hipster – quem diria – dá uma aura eterna pro processo de registrar uma imagem. E a gente não sabe mais lidar com eternidade. A temporalidade das redes sociais que influencia toda uma temporalidade da realidade fudeu com a nossa cabeça. Saber que vai ser revelada, saber que não tem rascunho, que aquela foto precisa funcionar como arte final, dá um peso que eu não estava mais acostumada a lidar.

 

E enquanto eu via todas as filosofias de Zygmunt Bauman e Lipovetsky resumidas na minha incapacidade de usar minha lomo, comecei a pensar sobre o quanto essa minha relação com a câmera era metáfora para muita coisa na minha vida. E não só na minha. Uma das maiores reclamações das pessoas atualmente é a incapacidade de criar vínculos, os desencontros que acontecem nas relações ou em coisas que nem chegam a virar relações porque simplesmente desaprendemos a parar e olhar, a dar tempo para que as coisas adquiram suas belezas e inevitabilidades.

 

Lembrei do livro “Alone Together” da americana Sherry Turkle e de uma palestra ótima dela no TED Talks. Ela comenta ali que a tecnologia está nos levando para um lugar que não queremos ir. “Estamos sozinhos mas estamos com medo da intimidade”, ela diz. “Então nos jogamos na tecnologia pra ter a ilusão da companhia sem as demandas da amizade ou amor”.

 

Diz aí, quantas vezes você já não escreveu um “to com saudade” mas logo apagou antes de enviar optando por um “oi” não comprometedor? Ou escreveu um “queria te ver” e apagou substituindo por um “e aí, tudo bem?” A gente faz isso o tempo todo, edita o pensamento, o sentimento, coisa que só a tecnologia nos permite. Nas conversas no whatsapp, facebook, etc temos a possibilidade de controlar o que falamos e, acostumados com isso, a vulnerabilidade das trocas reais são hiperbolizadas. Como disse Sherry Turkle, “relações humanas são bagunçadas e nós limpamos elas com a tecnologia. É quando tropeçamos, hesitamos, perdemos uma palavra  que a gente se revela”. E a beleza está em se revelar, é nesse momento que as trocas que valem a pena acontecem. Por que estamos nos privando de trocas que valem a pena?

 

Tenho pensado muito nisso e no efeito bola de neve que esse processo acarreta. Um “to com saudade” ou um “queria te ver” não enviado gera do outro lado uma resposta igualmente segura e não comprometora. E assim ninguém se compromete, ninguém se encontra de verdade e as pessoas passam por nossa vida rolando com a rapidez de um post na nossa timeline. Um bando de gente alone together (com as covardes seguranças de suas individualidades) reclamando que não existe amor em Sp.

 

Um dia eu estava numa mesa de bar e falei alguma coisa fofa sobre alguém e uma amiga disse “que amor, ficou vermelhinha”. E eu pensei: que mundo louco no qual falar sobre as maiores loucuras sexuais é ok mas falar sobre sentimentos nos parece obscenamente íntimo, nos dá aquela vergoinha que em outros tempo era causada por obscenidades reais.

 

O fato é: declarei guerra contra isso. Quero relações reais, quero reaprender a lidar com minha vulnerabilidade, quero me permitir me sentir exposta, hesitante, entregue sem esse medo bobo paralisante. Tenho usado a psicologia suuuper profunda (#sqn) do “vai perder um braço?”. Quando me sinto com esses medinhos pós-modernos logo reajo dando metafóricos tapas na minha própria cara e  falando pra mim mesma: “o que pode acontecer? Vai perder um braço?” Sugiro que vocês usem também. Se entreguem. Vamos resgatar essa verdade perdida e essa conexão com a gente mesmo que nos parece tao obscenamente íntima. Perca o medo de errar, o medo de não ter rascunho. Da próxima vez que for escrever algo que sente, não apague.

 

Garanto que você não vai perder um braço.

 


Comments