Minha semana num resort nudista na Jamaica

by: Carol Teixeira -

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Uma coisa curiosa sobre o resort Hedonism: ouvi muita gente ao meu redor falando que tirou coisas da sua ‘bucket list’ (lista de coisa a fazer antes de morrer). É no mínimo intenso estar presente nesse tipo de momento na vida das pessoas. E acho que isso diz muito sobre esse lugar tão livre e tão mágico no qual o prazer se apresenta de tantos jeitos diferentes. E explica muito sobre a intensidade das relações que rolam ali. Eu também tirei coisas da minha bucket list. Talvez até o final desse texto eu conte. Talvez não porque, como dizem lá, “What happens at Hedonism stays at Hedonism”…

 

O Hedonism fica na Jamaica rodeado de muita beleza natural e cheio de pessoas livres e nuas. Sim, é um resort com uma proposta hedonista no qual roupas são opcionais. O público varia entre vinte e tantos até sessenta, ou seja, adultos, todos muito conscientes da sua sexualidade. Alguns swingers, outros voyeurs, outros mais exibicionistas ou apenas casais que queriam um descanso de suas rotinas. O curioso é que todos ali tem vidas convencionais, filhos, trabalhos, responsabilidades, não é tipo uma-galera-muito-louca. Mas ali no ambiente protegido e livre do Hedonism eles se permitem viver uma semana ou mais de loucura, se desapegar dos pudores da vida real e se jogar na experiência mais hedonista que eles sejam capazes de viver.

 

“Esse lugar rejuvene a pessoa, a gente se sente desejado”, me disse um casal do Canadá enquanto conversávamos nus na piscina nudista.

Nessa área da piscina nudista voce só pode ficar se estiver compleatamente nu (pode ficar tranquilo porque é proibido levar câmeras ou iphone para essa área e todo mundo respeita a regra). Na praia particular nudista também. Se você quiser manter alguma peça de roupa precisa ir para o chamado “prude side” (lado puritano), onde tem uma praia e piscina nas quais roupas são opcionais. É engraçado porque as pessoas que vivem a experiência nudista falam com um certo desprezo sobre os que optam por circular só no prude side, relacionam esse lado a algo chato e sem aventura. Mas, believe me, eles estão certos porque a parte legal é a parte nudista, é lá que você vai encontrar as pessoas mais interessantes e viver a experiência completa. Tá na chuva é para se molhar, né gente?

 

Então eu estava nesse paraíso da Jamaica para passar oito dias. Detalhe: sozinha. Sim, eu sou a única pessoa louca o suficiente para me meter sozinha num resort libertino frequentado quase exclusivamente por casais. Passei meu primeiro dia tranquila, sozinha, escrevendo, curtindo a praia e arrisquei um tímido topless no prude side. No segundo dia comecei a fazer amigos libertinos e entender um pouco da filosofia do lugar. A maioria é “repeater”, como eles falam, ou seja, muitos já tinham ido muitas vezes. Das pessoas que conheci eu era a única que tinha ido menos de três vezes. Chamam o lugar carinhosamente de Hedo, como se estivessem falando de um amigo. É impressionante a conexão forte que as pessoas tem com o resort. Em meio a libertinagem rola um clima família (haha juro!) porque como muitos vão sempre, tem essa relação de carinho com os funcionários e entre os hóspedes acaba rolando uma relação de amizade real, que transcende a circunstância.

 

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Por falar em amigos fiz vários incríveis lá, minha mesa no jantar do segundo dia estava cheia de pessoas interessantes . Começando por um casal americano super simpático, apresentadores de um programa da Playboy Radio, os dois lindos, ela já tinha sido capa da Playboy americana e os dois juntos tinham participado de um reality show. Exaltavam muito essa vibe “sex positive” do lugar e me explicaram um pouco como as coisas rolavam lá. Outro casal ao meu lado tinha recém casado e estava passando a lua de mel lá. Tinha também uma russa linda e seu marido de Seatle. E um policial de Nova York com sua mulher porto riquenha. Esses últimos viraram meus grandes amigos, foram as pessoas que mais convivi no resort.

 

Existe uma rotina que se estabelece no Hedonism. Após o jantar (só comidas jamaicanas incríveis) tem sempre algum mega show que rola no salão do jantar mesmo (esse salão e a recepção são os únicos lugares onde não se pode andar nu). Não é necessariamente algo a ver com sexo, é algo sempre com um tema diferente, com dança, música e entertainers absurdamente talentosos (liderados por Winston, uma das figuras mais interessantes que encontrei lá). Depois todos vão para o piano bar que é uma das coisas mais legais do lugar. Tem o Dione que toca piano há anos no resort então conhece a maioria dos frequentadores. Todos ficam ao redor do piano naquela vibe estranhamente família que eu falei. Outra figura clássica do lugar é o Eldon que todos exaltam como “o melhor barman do mundo”. Tem uma menina que canta mas eles incentivam as pessoas a cantarem também se quiserem. E coisas ótimas & loucas acontecem. Exemplo: de repente uma mulher, uma hóspede que não fazia parte do show, sobe no piano e começa a dançar e fazer um strip ao som da música tocada. A galera vai a loucura. Ela tira as poucos a roupa toda, fica totalmente pelada, se solta como se estivesse fazendo um strip profissional – rebola, bate cabelo, fica de quarto e rouba o chapéu de um cara que está no público. Mega sexy. Depois dela, o tal cara com chapéu de cowboy que ela roubou se empolga e sobre no piano também. E faz um strip, fica completamente nu. A sensação de ver aquelas pessoas se libertando e sendo tão incentivadas e nada julgadas pelos outros ao redor é tão libertadora, tão inspiradora, que eu quase subi no piano. Mas não tive coragem, fica pra próxima ida.

 

Depois do momento piano bar tem sempre uma super festa temática que acontece em algum lugar do Hedo. A desse dia foi ao redor da piscina e o tema era Glow, as pessoas ganhavam coisas luminosas (nos outros dia rolaram temas como ‘school girl night’, ‘rockstar night’, etc E a maioria das pessoas se vestia a caráter). Música altíssima e gente vestida de acordo com o tema, outros apenas semi nus ou pessoas que ao longo da noite foram tirando algumas peças. Se permita deixar seu julgamento de lado e se jogue na proposta, mesmo que se a princípio não tiver a ver esteticamente com você. Vale a pena. Não tinha nenhuma unidade estética, cada um de um jeito completamente diferente do outro. Liberdade até nisso. Eu olhava tudo aquilo e ria de mim mesma lembrando que eu estava sozinha naquele lugar. Agradeci mentalmente minha mãe por me criar com essa autoconfiança bizarra que me permite viver essas coisas e fui falar com o cara gato de supensório de led ao meu lado.

 

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Depois da festa fui conhecer a sala chamada de playroom. Me disseram que era ali que o babado todo acontecia. E de fato é. Parecia a orgia do filme ‘De Olhos bem fechados’, do Kubrick, versão Jamaica. Entrei ali com meus novos amigos e me deparei com aquela estrutura perfeita para a causação. É uma sala grande fechada que tem no centro um espaço livre com pessoas em pé, bebendo, como se estivessem numa festa. Ao redor, camas no chão e pessoas transando enlouquecidas ou em preliminares empolgadas. Eram 2, 3 ou 4 pessoas juntas em cada cama. No fundo do lugar tinha uma parede de vidro, como se fosse uma vitrine e atrás mais duas camas para os mais exibicionistas que quiserem ser observados com mais destaque. E no canto uma cadeira que tinha um homem sentado e, ajoelhada na frente dele, uma mulher que chupava ele enquanto sentava em um vibrador fixo no chão.

 

Dia seguinte comecei a frequentar o lado nudista e nao parei mais até o final. É a coisa mais libertadora e divertida que já vivi. A praia é mais tranquila e a piscina é mais festa, um clima constante de pool party. As pessoas ficam conversando na água e curtindo o bar que tem dentro da piscina estruturado de forma que o outro lado do balcão redondo termine na praia. Entao ficam todos ao redor, bebendo e curtindo. Em alguns lugares dava para ver alguns casais mais empolgados, mas nessa área geralmente a causação não passa muito de brincadeiras e preliminares, não é uma trepação louca. Mas é um ambiente muito erótico. Estar nua em meio a tanta gente nua, depois que você se acostuma com a sensação, é muito sensual. E tem a massagem que você pode fazer nua também na beira da praia – experiência imperdível.

 

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Tem uma etiqueta sexual do lugar que rola subliminarmente: É um ambiente matriarcal, totalmente girl power. As mulheres que decidem tudo, que lideram as loucuras sexuais. Você pode vir a receber um convite de alguma mulher do tipo “Vamos para o playroom ficar só as meninas e os maridos assistindo?”. Mas claro que ninguém é obrigada a fazer nada nem vai se sentir mal se não fizer. Tem muitos casais que vão lá também apenas para estar nesse ambiente livre mas não se envolvem com ninguém mais. Os casamentos só se fortalecem no Hedo porque os casais se tornam cúmplices e isso traz uma aura respeitosa para toda causação.

Muitos me falaram que não era só sair pegando outros, que tinha que ter uma afinidade, um papo, etc. Mas para outros a experiência era diferente: tem a história de um casal que no ano anterior estava num canto da piscina nudista, ela chupando ele, e de repente chegou uma mulher e disse “Can I blow him?” (Posso chupar ele?). A namorada que chupava o cara, meio sem saber como reagir, disse “ok”. Nisso chega outra mulher e pede também “Can I blow him too?”. Resumindo, além da esposa, mais duas mulheres chuparam o cara. Lucky guy. Fiquei sabendo dessa história quando estava conversando com o tal casal e um cara passou, olhou para a mulher e disse: “Oi! Minha mulher chupou seu marido ano passado, lembra?”. Rimos muito. Coisas que só o Hedonism pode proporcionar para você.

 

Algumas conclusões:

 

Passado o primeiro ou segundo dia em que estamos com nossas armas e julgamentos ainda a todo vapor, parece que a gente entra num universo paralelo onde tudo é possível. A naturalidade com que falam sobre squirt, vibradores ou sobre a maneira como gozam ou não gozam é muito sincera e livre. Não é da forma fake que  muitas vezes vemos em mesa de bar, são pessoas reais lidando com seus corpos perfeitos ou imperfeitos, com suas maneiras diferentes de sentir a sexualidade, tudo tão humano e honesto que fica muito óbvio porque essa experiência melhora a vida sexual das pessoas.

 

Uma mulher me disse: aqui todo mundo se sente sexy por uma semana. E é verdade, todos se sentem sensuais não daquela forma publicitária, baseada em padrões pré-estabelecidos, performances e aparências, mas com aquela sensualidade única e individual que faz cada pessoa tão especial. Aquele elemento que não está na roupa que você veste, no seu estilo, nem no seu discurso inserido num determinado contexto social, dentro das paredes que você criou para você mesmo com suas escolhas. Ali você está está nu real e metaforicamente. E o efeito que isso tem na percepção de vida de uma pessoa é MUITO forte. Só vivendo para entender.

 

Claro que é muita intensidade para viver por mais de dez dias. Mas é uma experiência tão profunda que, ao sair dali, eu percebi que a frase “What happens at Hedo stays at Hedo” vai muito além do sentido óbvio de que as loucuras que acontecem ali ficam ali. O que acontece no Hedonism fica no Hedonism porque o que se vive nesse universo paralelo é quase impossível de colocar em palavras.

 

<3

 

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(Os hóspedes geralmente deixam ali uma pedra com uma arte – feita por um artista local – com algo escrito ou desenho que represente sua estadia lá. Nessa foto eu estou colocando a minha)

 

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(eu antes de mergulhar. Nesse barquinho estavam também dois casais de ingleses completamente nus. Até o final desse momento mergulho eu não descobri ali quem era mulher de quem, aparentemente estavam todos juntos. Isso é muito Hedo haha)

 

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(em um relacionamento sério com o mar da Jamaica <3 )


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