Na Cama com Sasha Grey

by: Carol Teixeira -

(entrevista que fiz com a musa Sasha Grey para a Revista Vip. Tarde ótima de papos, cachaça e uma sessão de fotos que fizemos para a revista. Teve também uma entrevista sobre outros assuntos em vídeo. Se não viu clica aqui  )

O que você provavelmente sabe: Sasha Grey é a famosa ex-atriz pornô americana que protagonizou as cenas mais hardcore que você já viu e ganhou os maiores prêmios da indústria. Também protagonizou um filme mainstream de Steven Soderbergh e já virou uma espécie de mito cool com apenas 25 anos de idade. O que você talvez não saiba: pessoalmente ela é uma mulher meiga (ainda que nada ingênua) e engraçada, espontânea. E improvável: muda o assunto de Jean Paul Sartre para deep throat sem pestanejar, com uma naturalidade que faz até a pessoa mais careta achar aquela uma transição perfeitamente normal. Putaria? It’s on the eye of the beholder [está no olho de quem vê].

Eu passei a tarde com Sasha em um dos dias em que ela esteve no Brasil para lançar seu livro erótico Juliette Society (LeYa, R$ 34,90), obra que já é sucesso em vários países. Fizemos fotos no quarto de hotel no qual ela estava hospedada, almoçamos juntas e falamos de seu livro, de filosofia, de pornô e, claro, da grande curiosidade de qualquer pessoa que já tenha assistido a ela realizando as maiores peripécias imagináveis em cenas de sexo: a vida sexual da própria, longe de câmeras. Com tanta personalidade e zero obviedade, ela não se encaixa  em conceitos pré-estabelecidos, dando um nó em suas certezas. Mas até desfazer esse nó, você já estará inexoravelmente encantado. Ninguém passa incólume por Sasha Grey. Você não passará.

Com vocês, miss Grey.

Como era sua sexualidade na adolescência? Era um pouco reprimida. Eu cresci católica, minha mãe não acreditava que as pessoas pudessem fazer sexo antes de se casar, e eu discordava dela, mas ainda não sabia como lidar com minha própria sexualidade, especialmente porque garotas eram vistas como putas se faziam sexo com mais de um cara na escola. As mulheres não são encorajadas a tomar o controle e fazer o que elas querem nessa área. E isso é péssimo quando você é adolescente.

Você assistia pornô? Assisti a primeira vez quando tinha uns 13 anos e achei engraçado. Achava que não era algo que eu podia assistir de forma séria e tipo gozar, era muito constrangedor. Daí, com 16 eu comecei a ver com outros olhos e pensei: ok, eu posso lidar com isso.

E por que escrever um livro? Eu sempre escrevi, desde criança, sempre foi uma das minhas paixões. E comecei a ter muitas fãs mulheres e elas me escreviam dizendo: “Por favor, escreva para mim, eu gosto de você, eu gosto da sua ideologia em relação ao sexo”. Muitas me diziam que gostavam de sexo sujo e pervertido, mas não gostavam de assistir pornô, preferiam ler. Comecei a ter essa vontade de escrever um livro erótico. Daí saiu 50 Tons de Cinza e foi aquele sucesso entre as mulheres, e meu agente me ligou e disse: “Se você quer fazer, agora é a hora”.

Falando em 50 Tons de Cinza, você leu esse livro? Li o primeiro livro, não li a trilogia. Não é algo que eu ame ou pelo qual me sinta atraída, mas me inspirou a escrever algo diferente. E eu gosto que o livro fala sobre BDSM (Bondage e Disciplina, Dominação e Submissão, Sadismo e Masoquismo), porque agora pessoas na cultura pop estão falando disso.

Sim, donas de casa estão falando de BDSM… Exatamente. Isso nunca tinha acontecido, sempre foi contracultura, a pessoa tinha que descobrir sozinha. Trazer isso para a massa foi o ponto positivo do livro.

Você se excitaria com um lugar tipo Fuck Factory ou Juliette Society, as orgias criadas por você em seu livro? Eu curtiria observar, mas não participar. Mas não quer dizer que eu não curta algumas coisas ali, é só que eu não gostaria de fazer com aquele grupo de pessoas. Eu reservaria para mim e para meu namorado.

Na vida real, você é tão hardcore no sexo como parece nos filmes pornôs que faz? Sim. Eu gosto de tudo aquilo. Quando algumas pessoas perguntam se eu sinto falta do pornô, eu digo que eu sinto falta do acesso ilimitado que o pornô lhe dá para o sexo. Então, eu curto aquelas coisas mais violentas ali, mas não chegaria a dedicar um espaço na minha casa especificamente para isso… Ou talvez pudesse dedicar, não sei [risos].

No seu livro, sexo e poder são muito conectados. Como você vê isso? É uma parte natural da vida. Você não tem um sem o outro. As pessoas precisam de certas válvulas de escape e algumas vezes isso passa pelo poder: às vezes elas precisam se sentir submissas no sexo para desencanar do poder que têm em suas vidas ou, ao contrário, usam o poder de suas vidas profissionais para fazer o que querem sexualmente com os outros. Então, o poder no sexo pode ser usado como manipulação ou como fantasia.

Meu projeto de mestrado em filosofia é sobre o poder da mulher como objeto sexual e eu menciono você como exemplo extremo disso. A ideia é que o objeto desejado (uma mulher sensual numa capa de revista ou num filme pornô) está no comando porque é quem detém o desejo do outro, está no poder. Logo é sujeito ativo, embora pareça objeto. Você concorda?Totalmente! Eu sempre quis controlar minha situação e sempre controlei. Muitas pessoas têm essa ideia de que, porque é pornô, é uma ditadura masculina. As pessoas que falam isso esquecem que mulheres também têm fantasias. Eu sempre fiz minhas própria regras e nunca deixei ninguém me pressionar para fazer algo que eu não quisesse. E eu, no pornô, quis usar meu corpo para me expressar e expressar minha sexualidade e mostrar pa­­­­­­­­­­ra as mulheres que elas podem querer algo diferente.

Catherine, a protagonista do seu livro, tem muitas fantasias, geralmente fantasias que o namorado dela não realizava. Que fantasias no seu livro são suas também? Algumas eu tive a chance de viver e algumas são puramente histórias que ouvi. E algumas são minhas mesmo.

Conta uma que é sua. Não… Vou manter o mistério [risos].

Você assiste pornô? Claro, muito.

Mas você procura vídeos em xvideos.com, por exemplo? Deve ser engraçado, porque você está ali em vários [risos]… É, às vezes passo por mim ali e… Ops, eu! [risos].

Você se excita de se ver? Não… Fico muito autoconsciente, sabe? É estranho.

Quem é seu ator pornô favorito de assistir? Eu não tenho mais um favorito no pornô americano, ando assistindo coi­­­­­­­sas diferentes, tipo pornô europeu, pornô japonês…

Pornô japonês? Que interessante. Como é? É mais sensual, mas ainda muito safado.

Quem são os atores e as atrizes com quem você mais curtiu trabalhar?Entre os homens, o melhor de todos foi o Tom Byron, sempre superprofissional e incrível. Entre as mulheres, com certeza Bobbi Starr e Kimberly Kane.

Você prefere atuar com mulheres ou homens? Os dois.

E na vida real? Prefere sexo com quem? Acho que mais com homens.

Você está namorando? Estou.

E acredita em monogamia? Eu não acho que é natural, mas agora estou numa relação na qual nós dois somos mo­­­­nogâmicos. É interessante porque há poucos anos eu não me imaginava numa situação em que eu quisesse isso, e agora quero. Mas minha opinião pode mudar ao longo do caminho, mudo muito de opinião.

Trabalhar na indústria pornô afetou muito sua vida sexual? Muito. No início foi difícil, porque eu gravava cinco dias por semana. Daí chegava em casa e tinha vontade, mas não podia sempre, porque não podia estar dolorida no outro dia no set. Então, eu tinha que agendar as coisas, calcular, e era difícil. Mas, depois do primeiro ano, passei a ter controle da minha agenda e comecei a marcar minhas próprias cenas e isso tornou tudo mais fácil. E tinha também uma coisa estranha que acontecia: eu estava namorando e ainda era atriz pornô, e então quando eu ia transar na minha vida pessoal estranhava não ter uma câmera lá. A dinâmica era afetada.

Você atuando é muito convincente, parece que está curtindo muito sempre. Você tinha prazer atuando? Ah, sim, muito prazer. Você ouve no pornô muitas histórias de mu­­­­­lheres não gostarem do que fazem. Eu nunca quis ser uma dessas garotas. Eu sempre me masturbava antes das cenas, para ficar excitada mesmo, estar pronta.

Qual a sua cena favorita? Gosto muito de coisas que fiz pa­­­­­­­­­­­ra o Kink.com [vídeos de bondage e BDSM]. E o filme favori­­­­­­­to é provavelmente o último que eu fiz, Fuck Sasha Grey.

O que você acha das feministas que julgam você? Acho que todo mundo tem direito de ter uma opinião. Mas julgar alguém por algo que você não tem experiência e dizer que isso é bom ou ruim não é legal. Muitas delas nunca tiveram uma conversa comigo, então não podem julgar.

Você curte filosofia também, né? Muito. Especialmente Sartre [Jean Paul Sartre, filósofo francês existencialista].

Também adoro ele. Mas meu preferido é Nietzsche. Tenho duas tattoos com citação de livros dele. Você curte? Adoro também. Quando eu era adolescente, tinha um livro dele no chão do meu quarto, e minha mãe, que é supercatólica, entrou, viu a contracapa e ficou chocada, porque estava escrito “Deus está morto” [uma das frases de Nietzsche]. E ficou furiosa falando: “Que coisa satanista, pare de ler isso!” E eu disse: “Mãe, Nietzsche é tipo heavy metal: não é porque soa assustador que é assustador” [risos].

E, por falar em mãe católica, o que ela acha de ter uma filha que fez pornô?Ela nunca quis que eu fizesse, mas acho que no fundo ela não se importou tanto assim. E meu pai achou normal, por ser algo que eu me propus a fazer.

Na minha coluna na VIP, eu geralmente dou dicas aos homens para lidar com as mulheres. Que dicas você da­­­­ria a eles? Eu diria: sejam espontâneos, isso é o mais legal. E não sejam ansiosos, tipo sair metendo o dedo na garota. Tomem seu tempo, calma, isso não é uma competição. Ouçam a mulher, entendam o que ela quer. Mas também às vezes é legal tomar o controle da situação. Não importa em que parte da casa você estiver, em algum momento pare sua namorada, abaixe a calcinha dela e “just fuck her” [risos].

Concordo totalmente [risos]. Voltando a sua vida sexual, que me deixa muito curiosa. O que você pensa quando se masturba? Prefere imaginar algo ou assistir? Os dois, depende. Às vezes, eu penso no sexo que eu acabei de ter ou algo que eu quero muito fazer. E tenho assistido pornô japonês… Muitas pessoas não curtem porque as meninas são estranhas. Mas é exatamente por isso que eu curto.

Como é uma cena capaz de te excitar muito num filme pornô? Eu gosto de bundas. Então me mostre uma mulher bonita com uma boa bunda e eu fico bem [risos]. E gosto quando vejo química entre os atores. Isso me excita muito. Nada mais brochante do que atores com cara de entediados enquanto estão trepando.

Ano passado dei uma entrevista na MTV num programa sobre sexo e me perguntaram que mulher eu pegaria. Eu respondi: Sasha Grey [risos]. Que legal! [Risos.] Esses dias eu fui a um programa e me perguntaram que mulher da música eu pegaria…

E você disse: Carol Teixeira? [risos] Não, mas da próxima vez vou dizer [risos].


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