O amor não é uma nota de rodapé

by: Carol Teixeira -

(foto: eu e Elizabeth Kantor louca de frio enrolada no cobertor)

 

Recebi essa semana um convite ótimo: mediar o papo com a Elizabeth Kantor, escritora americana especializada em Jane Austen que escreveu um livro interessantíssimo analisando as relações atuais sob a ótica das personagens da famosa autora: ‘A Fórmula do Amor – os segredos de Jane Austen para os relacionamentos” (ed. Realejo). Devorei o livro em um dia e ontem lá fui eu conversar com Elizabeth. Mulher madura e inteligente, segura e com uma lucidez impressionante. Adorei ela, uma alma inspiradora & profunda, um alívio em meio a tanta superficialidade desse mundo pós-moderno de valores definidos por números de curtidas nas redes sociais. O encontro rolou ontem no rooftop da Hoxton num clima tão íntimo e descontraído que, como ela mesmo definiu, parecia um encontro de amigas em casa. Jeff, o marido querido dela que acompanhou o papo todo, falou que foi o encontro mais legal que ela teve aqui no Brasil. Thanks Cristiana Ventura e Marta Mandelli (Hoxton girls) e Rodrigo Simonsen, a noite foi linda <3

 

Aqui alguns trechos do nosso papo.

 

Eu: Como decidiu conectar Jane Austen com os relacionamentos e mulheres atuais?

 

Elizabeth: Eu sempre amei Jane Austen e estudei muito a obra dela. E quando casei, paradoxalmente comecei a querer entender porque certos relacionamentos não davam certo. Daí, na mesma época, li um artigo no Washington Post que falava sobre porque estava acontecendo essa empolgação toda com Jane Austen ultimamente, com tantos filmes baseado na obra dela. Comecei a ler e discordar dos motivos apontados ali. Eles diziam que as mulheres gostavam de Jane Austen porque conseguem conectar com ela, ‘as personagens são como nós’, diziam. E eu pensei não, nós a amamos porque vemos nos livros coisas que são difíceis de conseguirmos hoje: finais felizes, elegância, dignidade…as mulheres em seus livros eram muitos espertas com os homens, tinham uma confiança, tinham princípios que podem ser transferidos para hoje e nos prevenir de erros em nossas relações. Os insights que ela tem nos livros dela sobre psicologia masculina e feminina podem ser destilados e transferidos para as mulheres modernas e a vida moderna. E funciona. Veja o insight que ela tem sobre a dinâmica dos relacionamentos, como eles podem dar certo ou errado, você olha ao redor e vê que as coisas ainda acontecem de jeitos parecidos.

 

Tem um capítulo em que você compara as personagens de Jane Austen com Bridget Jones…

 

Sim, achei esse paralelo interessante, porque são opostos. Helen Fielding (autora de O Diário de Bridget Jones) mostra o abismo que tem entre uma personagem de Jane Austen e as mulheres de hoje, mas de uma forma engraçada, cômica. Eu, nesse meu livro, olho também para esse mesmo abismo, mas ao invés de o usar pra entretenimento eu tento pensar em como diminui-lo.

 

Tem uma passagem do seu livro que eu adorei na qual você diz que só porque o amor pode acabar mal, não significa que o melhor caminho é focar toda nossa energia e cuidado em outras áreas da vida, nas quais acreditamos ter mais controle. Você também escreveu que “tentar tornar o amor uma nota de rodapé ou um passatempo não é a solução de Jane Austen. As coisas mais cruciais para nossa felicidade nunca estão totalmente sob nosso controle. Elas dependem de outras pessoas. E assim, é razoável que gastemos capital intelectual e emocional significativos em nossos relacionamentos – mas, da forma certa, não da errada”

 

Sim, isso é algo que eu noto hoje em dia, é como se o amor fosse uma nota de rodapé. As mulheres foram aconselhadas nas últimas décadas a pensar assim. Muitas mulheres reclamam que os homens que elas conhecem não são legais, então ela vê como solução focar em outras áreas, não se apegar. Ela acaba sendo igual aos homens que ela critica. E daí surgem aqueles livros que eu considero muito brutais pra mulher tipo “As Regras”, “Ele Simplesmente não está a fim de você” ou aquele “Aja como uma dama, pense como um homem”, livro de conselhos que não respeitam a psicologia feminina.  E acho q Jane Austen tem mais esse respeito. Alguém tem que pensar nas relações. Não é um jogo, se as pessoas entendessem a importância dos relacionamentos todos seriam mais felizes. Os homens lêem meus livros e dizem : onde eu encontro uma mulher assim? Talvez se as mulheres tivessem a coragem de ser um pouco como as heroínas de Jane Austen, talvez elas achassem seu Mr. Darcy.

 

O que seria a tal “felicidade racional” sobre a qual você fala no sexto capítulo?

 

É o que a Elizabeth Bennet, personagem de “Orgulho e Preconceito”, diz que quer. O capitulo é sobre o que isso significa. E tem muito a ver com equilíbrio. Sem cair em nenhum abismo de extremos. A gente ouve músicas e ouve histórias ao longo da vida que nos levam a pensar que amor é sobre extremos, que é sempre  estar terrivelmente apaixonado ou muito desesperado, como se fosse mais importante ter uma vida eufórica do que uma vida feliz. Mas Jane Austen mostra que felicidade e equilíbrio não são chatos. Elizabeth e Darcy estão tentando fazer a coisa certa, não cair nos extremos. A aventura esta justamente em achar esse equilíbrio.


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