Pedro Moutinho e a desordem da obscenidade

by: Carol Teixeira -

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Em um de seus seminários Lacan disse: “o corpo, ele devia deslumbrá-los mais”. Essa é uma das frases que talvez resuma o que penso quando vejo o quanto as pessoas temem o corpo e as manifestações eróticas. O que me lembra outro pensador do erotismo, meu muso Georges Bataille, que explica o incômodo que o tema causa: “A obscenidade significa a desordem que perturba um estado dos corpos que estão conformes à posse de si, à posse da individualidade durável e afirmada”.

 

Lembrei dessas coisas enquanto via a exposição “Mentiras eróticas e Absorventes”, do Pedro Henrique Moutinho, que está na galeria Luis Maluf (Peixoto Gomide 1887).

 

Adorei e saí de lá querendo todas na minha casa. Como o título sugere, todas as obras tem uma carga sexual forte, quase como se estivéssemos espiando pelo buraco da fechadura a intimidade do universo feminino. Obras sensuais e expressivas se espalham por diversos materiais (caixas, portas de armário e também papel e tela) em desenhos que nos tocam daquela forma imediata (sem a mediação da razão) causando sensações que só o erotismo é capaz de causar.

 

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Falei com Pedro sobre seu processo criativo, sobre o que o inspira e sobre a polêmica causada por seu programa da HBO, “Mulher arte” (no qual ele pintava mulheres nuas enquanto as entrevistava). “Infelizmente ainda é tabu que uma mulher fale de sua sexualidade”, disse ele.”Arte é forma e conteúdo, é reflexão, pensamento, posicionamento, sendo assim por mais explícita que seja jamais será pornografia”.

 

Leia a entrevista completa aqui:

 

Como começou essa sua relação com a arte erótica?

 

O meu primeiro contato com arte erótica, que consigo lembrar, foi ainda na infância, com gibis de charges eróticas que meu avô comprava pra mim. Na adolecencia a referência era a revista Playboy que meu pai assinava. Eu sou da última geração pré-intenet. Depois veio a faculdade de artes plásticas onde conheci todo o universo da arte. O erotismo está em tudo que eu vejo, não sei se é uma coisa minha ou se todo mundo é assim. Apesar de apreciar arte erótica desde muito cedo foi só depois de maduro, depois dos 30, que tive interesse em produzi-la.

 

O que te inspira para criar? A ideia surge a partir de algo real?

 

Tudo que é humano me inspira, me alimenta. As imagens, algumas vezes me vêm prontas na cabeça, a partir de algo que ouvi ou de um movimento, alguém que passa na rua, um suspiro… Mas a grande maioria acontece a partir do encontro com pessoas reais. Eu gosto de usar modelos para construir as imagens. As mulheres ao posarem me levam a lugares que talvez eu não encontrasse sozinho. Um olhar, um gesto, uma pose que vem da particularidade de cada indivíduo. Algumas das minhas obras mais ousadas são fruto de observação de momentos reais.

 

Seu programa da HBO foi considerado pornográfico. O que você achou disso? Qual é na sua opinão a diferença entre erotismo e pornografia?

 

 

Dizer que a série Mulher Arte é pornográfica é simplesmente absurdo. A série é documental e não contém nenhum conteúdo explícito. Nem nenhum tipo de insinuação da prática sexual, não há nenhuma cena de sexo, real ou simulada. O que há de mais erótico na série é o depoimento livre de mulheres reais sobre sua sexualidade. Não ouve nenhum tipo de direcionamento para as respostas, cada uma contou o que quis. Mas infelizmente ainda é tabu que uma mulher fale de sua sexualidade. Vetar qualquer producão artística por conta do seu conteúdo é censura, pura e simples. Podem marcar como quiserem, é censura. Arte é forma e conteúdo, é reflexão, pensamento, posicionamento, sendo assim por mais explícita que seja jamais será pornografia.


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