Uma língua debochada dizendo yeah – Playlist do Fausto Fawcett

by: Carol Teixeira -

fausto

 

Como prometido, aqui vai a playlist sexual da semana. Dessa vez quem vai me contar quais são suas top 5 é o mestre Fausto Fawcett. Amigo querido com “um coração que é uma língua debochada dizendo yeah pra tudo”, escritor foda, multiartista arrasante, já é velho conhecido aqui do blog (foi o primeiro entrevistado dos videozinhos, se ainda não viu pode ver aqui). Mas claro que ele não ia só citar e deixar por isso mesmo: fez questão de explicar faustianamente todas as escolhas. Sorte a nossa.

 

1) Jumping Jack Flash – The Rolling Stones

 

Ganhei em 68 o compacto dulpo com essa música e mais quatro do LP Their Stanic Majesties Request e pirei total tanto com a música quanto com a capa onde as majestades satânicas, as pedras rolantes Mick, Keith, Wyman, Watts e Brian Jones apareciam fantasiados de, digamos, absurdos padrinhos da festa de 15 anos da filha de Lúcifer. Resumindo, firmei meu pacto com eles pra sempre. Meu coração é uma língua debochada dizendo yeah pra tudo.

 

 

2) Você – Tim Maia

 

Pois é, continuo naqueles idos…Primeiro disco do Tim Maia. Essa música que depois foi gravada pelos Paralamas e é sempre frequentada por muitos cantores, bem essa música assim como todas as outras do disco me arrepiou completamente, pois a voz  daquele cara era, um trovão suburbano cortando fundo as veias amorosas e festivas. Ponte entre  cotovelo doído e brega totalmente descascado e os amores de casais em automóveis na antes próspera Detroit pátria da Motown. Foda Tim Maia. Muito forever.

 

 

3) A Nona Sinfonia de Beethoven

 

(Na verdade tem um empate técnico na mente do meu coração com os concertos de Brandemburgo de Johan Sebastian Bach, mas tudo bem fica pras minhas internas, na lista vai o Beethoven)  que me foi apresentada aos quinze anos pelo livro Laranja Mecânica, aliás, a música dita erudita, clássica me foi apresentada pelo livro de Anthony Burgues (e pelo filme que, proibido, fazia os viciados em Laranja Mecânica sentirem abstinência dos que não tinham, mas o tempo passou a ditatura também e Kubrick chegou) e eu roqueiro cheio de imaginário rebelde não juntaria normalmente violência juvenil, nervosismo de urgência delinquente com musica divina dos clássicos de todos os tempos. Aquilo me desconcertou de uma maneira definitiva e jogou o coração do meu intelecto, jogou a minha visão estética do mundo noutro patamar. O personagem Alex (que mereceu depois um disco-homenagem do Sepultura) numa Londres futurista- decadente dominada por gangues lideradas por adolescentes como ele escancarava uma vitalidade, uma sensibilidade  que hoje esta devidamente oficializada institucionalizada nas grandes cidades brasileiras, a saber, a ultra violência gratuita, esporte avulso da pancadaria e matança, mas que no livro ganhava contornos poéticos bem peculiares e Alex era o sacerdote desses rituais urbanos barra pesada. Beethovem era o Deus a guiá-lo. E a mim também.

 

 

4) Sex Machine – James Brown (1970)

 

Porrada total quando ouvi o negão berrando e suingando (depois na tv dançando daquele jeito inspirador de Jagger e Michael) o grito primal de todos os gozos. Dançar ou simplesmente ficar ouvindo a marcação funky e os ataques ao microfone da boca guturando taras, ganhando no  grito a aceitação das serotoninas e dopaminas. As substâncias de prazer e recompensa  do meu cérebro adolescente totalmente acionadas. E o nome era aquele mesmo “Máquina de Sexo”. É o que somos. A ela somos condenados. É o principal plot, mote…Função do corpo na extensão e sobrevivência dos genes. Nascer, se reproduzir e morrer. Mas fantasiamos, distorcemos tudo que vem dessa maquinaentemas o gene chama pra missão que tem como coletora a morte insinuante. Maquina de viver sexo nos gritos de James Brown. Veia saltada.

 

 

5) O Superman –  Laurie Anderson

 

Tava faltando mulher nessa lista e esta tinha que ser  de fino trato geral. Tinha que ser a mulher do Lou Reed. 1982 (ou 3 ou 4 não me lembro ao certo). Quando ouvi aquele sucesso de circuito ultra experimental – off off  nova iorquino- virar sucesso cult mundial com sei lá, duzentas mil cópias vendidas, fiquei embasbacado porque a música (o disco Big Science todo)  era praticamente um mantra eletrônico. Era (é) como se fôssemos transferidos para as entranhas da mais antiga secretaria eletrônica e ela enguiçasse e começássemos a ter  uma espécie de levitação trancada, apertada num aparelho eletrodoméstico de comunicação. Era um link  entre  a primeira audição também arrebatadora e libertadora de Autobahn do Kraftwerk  introduzindo definitivamente imaginários robóticos, espiritualidade cibernética no cardápio das intenções musicais. O que agora tomou conta de forma  avassaladora do cenário musical com a frankensteinização de todos os gêneros e estilos musicais.  Com novos equipamentos, plugações e distorções  potencializando a níveis estratosféricos  qualquer track ou show. Canção chega pra lá, deixa passar o bloco dos processadores, da brutalidade dos ritmos eletrônicos cada vez mais híbridos, das paisagens sonoras que já vinham dos alemães da década de setenta e de Brian Eno oferecendo a tal da espiritualidade cibernética, a única que nos resta. Noises e drones da atualidade experimental. O Superman – estranho lirismo maquinal isso sim. Uma mulher ainda por cima super performática, dando espetáculos de simbiose com aparelhagens coladas ao corpo, utilizações inusitadas de instrumentos inventados, textos como vibrações plásticas em telas e projeções. Laurie Anderson. Grande garota.

 

Para ouvir a playlist do Fausto, dá um play aqui.


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