Por um teto todo das mulheres

by: Carol Teixeira -

(texto meu publicado no Caderno de Sábado do jornal Correio do Povo, 4/12/2015)

 

 

Virginia_Woolfs_working_table_Sussex_1967

 

Escritoras são diferentes de escritores. Simplesmente porque homens são diferentes de mulheres. É outra relação com o mundo, logo, outra forma de expressão. Não tem como um ser que sangra todo mês, que tem essa ligação tão próxima com os ciclos da natureza, que flutua por tantos e diversos estados de espírito num mesmo mês, ter a mesma visão de mundo que a de um homem. A literatura de uma Anais Nin ou uma Clarice Lispector por exemplo, nunca poderia ter sido escrita por um homem. O mesmo se dá com a literatura da inglesa Virginia Woolf. Um stream of conciousness gritante & feminino. Lindo. No clamor por igualdade, às vezes esquecemos das diferenças inevitáveis e postivas que existem entre os sexos. O termo literatura feminina, sendo eu uma escritora e mulher, não me irrita (como acontece com algumas escritoras que são contra o termo), pelo contrário, me orgulha – e uma de minhas maiores inspirações é Virginia Woolf.

 

Falar dela, é falar da natureza feminina, em sua força e fragilidade (uma força que muitas vezes vem justamente da fragilidade).

 

E ela sabia disso. Entre seus livros existe um não tão comentado como seu Mrs Dalloway (um dos marcos do romance moderno) mas que consiste numa das reflexões mais interessantes sobre seu papel como mulher e escritora: “Um teto todo seu”, espécie de ensaio fictício que surgiu de duas palestras sobre o tema “mulheres e ficção” que ela proferiu em Newham College e Girton College, duas faculdades frequentadas por mulheres. E no livro ela escreve “Seria mil vezes uma pena se as mulheres escrevessem como os homens, ou vivessem como eles, ou se parecessem com eles, pois se dois sexos é bastante inadequado, considerando a vastidão e variedade do mundo, como faríamos com apenas um? A educação não deveria aflorar e fortalecer as diferenças em vez das similaridades?”

De uma forma fictícia, através da criação de um alter ego, ela resume (para o espanto de muitos) essa complexa questão sociológica e antropólogica – mulheres e ficção – de forma muito pragmática: “Uma mulher precisa ter dinheiro e um teto todo seu, um espaço próprio, se quiser escrever ficção”. Um espaço para exercer sua liberdade pessoal, tempo e condições básicas para se dedicar à literatura, tudo que faltou para as mulheres até o século XX.

 

Virginia teve uma vida marcada por depressões e perturbações psicológicas mas foi uma das escritoras com maior produção no seculo XX: nove romances, duas biografias, sete volumes de ensaios, vinte e seis cadernos de diários e muitas cartas. E foi uma suicida. Numa tarde de em 1941, ao 59 anos, entrou no Rio Ouse com pesadas pedras nos bolsos acabando com a própria vida. Diferente de sua personagem Mrs Dalloway, que se distraía com festas para encobrir o vazio, Woolf sentia o peso da vida num nível que lhe parecia insuportável.

Era dessas dessas pessoas que percebem a falta de sentido da vida, essa trama ilusória e construída que chamamos de realidade. Depressiva, suicida, feminista mas, antes de tudo, uma existencialista. Sua obra e seu diário transbordam densidade existencial. E a sensação de absurdo e vacuidade que habitavam seus pensamentos a levavam a surtos mas também, paradoxalmente, a pensamentos extremamente lúcidos.

 

A herança de Virginia Woolf segue como inspiração para mim e para todas as mulheres que vieram depois dela. Acreditando, como escreveu, que “se cultivarmos o hábito da liberdade e a coragem de escrever exatamente o que pensamos; se fugirmos das salas de visitas e enxergarmos o ser humano não apenas em relação aos outros, mas em relação a realidade”, o teto só nosso (em toda amplitude metafórica que essa expressão possa ter) será cada vez mais possível e natural sem que precisemos constantemente reafirmá-lo em discursos.


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