Shibari + Nobuyoshi Araki + Dior

by: Carol Teixeira -

 

 

Esse mês a Dior está lançando em suas lojas a coleção Esprit, clicada por um dos fotógrafos mais influentes do mundo: Nobuyoshi Araki. A galera da Dior confiou tanto na autenticidade e vibe autoral de Araki que o deixou participar até da escolha de modelos e looks, que trazem características sutis do trabalho do artista, como discretas amarrações e a presença de répteis. O trabalho de Araki ficou conhecido nos anos 90 pela causação atípica no mundo da moda: ele fotografava mulheres amarradas em poses eróticas, numa técnica conhecida por shibari. Amo as fotos dessa fase!

 

Araki_shibari

 

 

Mas vamos falar do shibari que esse blog aqui é de sexo e não de moda. O Shibari é uma técnica japonesa de Bondage, que tem por base a imobilização de uma pessoa por cordas. Ela era usada ha muitos anos atrás para colocar reais prisioneiros em posição de submissão, até que com o passar dos anos ganhou um teor erótico e marcou presença no campo artístico. É uma técnica bastante ritualística e tem uma qualidade estética muito forte com nós feitos meticulosamente.

 

Já faz tempo que eu queria falar sobre shibari com vocês. Fiquei fascinada com o tema desde que conheci, no ano passado, um dominador na Cidade do México que me apresentou a técnica num workshop de BDSM  (sigla para Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo) que rolou lá. Ele me pendurou de cabeça para baixo toda amarrada e ali eu tive tantas sensações intensas que eu não sei nem colocar em palavras. Não chegou a ser sexual porque eu não consegui relaxar o suficiente para que aquela adrenalina virasse algo próximo do tesão mas eu entendi muito a força e a beleza do shibari e desde então tenho me interessado muito pelo tema. É uma das coisas mais artísticas e esteticamente belas do universo sadomasoquista, representa de uma forma muito poética a sutileza da dominação e submissão.

 

NobuyoshiAraki_shibari

 

Para que vocês entendam mais sobre o assunto, entrevistei aqui uma das referências em shibari no Brasil: Lord Bondage, também conhecido como Luis Shibari. Dominador, shibarista, proprietário da Arte Shibari Brasil, ele é também professor universitário, administrador de empresas, e está no meio BDSM há 14 anos.

 

Como você definiria a arte do Shibari? É a mesma coisa que Bondage?

 

Shibari é antes de tudo a busca de uma conexão através das cordas entre o shibarista e a parceira; é uma troca de sentimentos e emoções que fluem e vão aumentando de forma exponencial. É uma técnica japonesa de dominação em cativeiro com o uso de cordas específicas (normalmente de juta natural torcida, de 6mm, com 8 metros). Essa arte é a junção de algumas variáveis ocidentais – japonesas – que incluem: artes marciais (Hojojutsu); religião (Shintoísmo e Budismo); poder/política (punições públicas medievais), cultura (teatro, revistas e fotografias); filosofias (wabi-sabi e shodo), entre outras.

A palavra Shibari é proveniente da tradução do verbo atar em japonês, e é utilizada em contextos cotidianos do Japão sem nada ter com o BDSM, como por exemplo, amarrar um sapato. Porém, quando o “atar” tem como objetivo imobilizar/amarrar uma pessoa, provocando dor, torturas e sensações de prazer, aí entramos no contexto BDSM, e poderíamos também utilizar para tal a palavra “Kinbaku”.

Um japonês quando assiste a uma sessão de Shibari/Kinbaku pode falar naturalmente que está vendo um Bondage, mas nesse caso ele refere-se ao “bondage” especificamente como “escravidão com cordas”.

Então, bondage significa escravidão, cativeiro, servidão, e quando está relacionado às cordas, temos a grandiosa contribuição japonesa ao BDSM, que é o Shibari ou Kinbaku.

 

Shibari é geralmente associado ao BDSM. Sexualmente ele sempre precisa estar associado a esse contexto de dominação e submissão?

 

Eu gosto mais dessa forma, dentro do contexto D/s – Dominação/submissão. Mas essa é uma visão particular pelo fato que sigo a filosofia japonesa do Shibari, onde sua essência é a conexão pelas cordas, subjugando. Mas isso não invalida outras formas de se fazer o Shibari – como o artístico, por exemplo, expondo as formas, as curvas do corpo feminino e as suas expressões através da fotografia, que também pratico.

Há que se deixar claro que o legítimo Shibari é realizado no contexto de Dominação/submissão. Se um casal resolve praticar dentro de suas relações sexuais o uso de cordas para imobilizar sua(eu) parceira(o), sem existir a D/s, não está praticando Shibari, mesmo que use os nós e as cordas específicas, mas está sim praticando o Bondage (imobilizando), o que também não deixa de ser algo gostoso, ao contrário, tudo que um casal queira fazer, sem prejuízo à terceiros – e à eles mesmos – que permitam novas e boas sensações, é sempre válido.

 

Como você começou a se interessar por isso e como é seu trabalho como shibarista?

 

Meu interesse pelo Shibari se deu por duas vertentes. Sempre gostei de amarrar – desde o final da adolescência, apenas não sabia o que era isso (risos). Anos mais tarde quando vi as primeiras fotos (em revistas e depois na internet), descobri e me descobri!

Foram anos vendo muita coisa, apreciando, colecionando revistas e fotos. Depois comecei a adquirir as primeiras cordas e iniciar o processo correto de amarrações. Muita pesquisa, livros, até chegar à essência do Shibari. Não me considero um shibarista completo, mas sim alguém em constante aprendizado. A cada dia – mesmo depois de anos lendo, vendo, praticando – aprende-se algo novo. É excitante.

Meu trabalho hoje com o Shibari acontece nas seguintes linhas: sou o único produtor brasileiro de cordas de juta natural tratadas dentro do padrão Asanawa (termo japonês que significa cordas para Shibari); realizo cursos e workshop´s de Shibari tradicional – dentro e fora de SP – tanto para iniciantes como para praticantes mais avançados; faço apresentações em festas e eventos; e estou iniciando um trabalho fotográfico de Shibari, onde pretendo em breve transformá-lo em um livro.

 

Como a pessoa faz para aprender? Quais são os primeiros passos?

 

O aprendizado deve, antes de tudo, ser constante, para que cada vez mais você crie afinidades com as cordas. Hoje existem na internet vários tutoriais que ensinam algumas amarrações, desde as básicas até algumas mais complexas – o google é uma boa fonte de pesquisas. Conhecer alguém que já pratique é bom para troca de informações, e se possível, um curso ou workshop presencial, com alguém que domine a técnica – existem algumas dúvidas que somente a presença do professor/instrutor pode sanar. É imprescindível que os primeiros conhecimentos adquiridos sejam relativos aos aspectos de segurança do Shibari. Prazer sim, mas com segurança sempre.


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