“Tira a mão daí menina!”

by: Carol Teixeira -

Esses dias eu estava no aeroporto e vi a seguinte cena: uma menina de uns 3 ou 4 anos botou a mão dentro da calcinha. O pai com uma voz super repressora gritou: “tira a mão daí menina!”.

Aquilo me irritou um pouco. Tentando entender porque, escrevi esse texto.

 

 

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“Tira a mão daí, menina!”. Essa frase tão familiar pra nós mulheres, sempre dita com um tom de reprovação máxima, ecoa por toda uma vida. Essas pequenas repressões (que, quem é mulher sabe, acontecem em lugares muito menos públicos do que um aeroporto) colaboram para que a sexualidade feminina seja tão confusa e reprimida.  Colaboram não: são sintoma de todo um pensamento que está tão arraigado na nossa sociedade que a maioria nem questiona. O menino desde cedo é tão incentivado a se conhecer, um ato desses é sempre levado como uma gracinha ou sinal de macheza, é “normal”. Já a menina cresce com a ideia de que aquilo é feio, errado. Ela mal pode pronunciar o nome de seu próprio órgão sexual, sempre incentivada a usar eufemismos ou palavras que o infantilizam. 

 

Antes que alguma visão senso-comum-facebookiana ou reducionismo politicamente correto venha me criticar, explico: não, não quero dizer com isso que devemos todas colocar as mãos em nossas bucetas em público ou que pais de crianças devem deixá-las se tocar em frente a todos, claro que não é isso. Sei lá qual é a situação daquela família específica mas minha reflexão vai muito além do fato citado. Quero dizer que é preciso ter cuidado, muito cuidado ao repreender uma menina que está se descobrindo.

 

Fui comentar sobre a tal cena (e a reflexão que ela gerou) com minha amiga Clara Averbuck, escritora e feminista – sabia que ela concordaria comigo. Clara disse: “A sociedade ensina as meninas a se preocupar mais com o que ‘os outros’ vão pensar do que com a própria vida, a própria vontade, o próprio corpo e o próprio prazer. Os meninos podem tudo; dificilmente ensinarão um menino que sexo é proibido, que o corpo dele é sujo e que ele não pode se tocar. É osso pensar que as coisas ainda são assim em 2015, mas é só atentar como perdura a dicotomia milenar da santa e da puta, da mulher pra casar e da mulher pra comer, da ‘mulher de valor’ e da que ‘não se dá o respeito’ pra saber que as coisas mudaram muito pouco”

 

Quando entrevistei a pornstar Sasha Grey falamos sobre uma outra entrevista que ela deu na qual dizia “I love my pussy” (“Amo minha buceta”). Comentei que aquela frase era tão simples e tão profunda ao mesmo tempo: porque realmente ninguém nos ensina a amar nossas vaginas. E isso é absurdo. Porque é uma repressão subliminar que rola paralela e paradoxalmente a toda uma suposta liberdade festiva libertina da publicidade e pornografia. Lá fora está tudo certo, mas dentro das casas a criação continua a mesma, perdurando valores arcaicos que projetam na mulher esse ideal asséptico e imaculado e que fazem com que as mulheres demorem muito mais para descobrir e aceitar o próprio prazer. Não é a toa que a maior parte das dúvidas que recebo das leitoras é em relação à dificuldade no orgasmo.

 

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Pra encerrar, nada melhor do que as palavras da musa escritora Chimamanda Ngozi Adichie (sim, aquela escritora cujo discurso We should all be feminists foi sampleado na música Flawless da Beyoncé):

 

“We teach girls shame. Close your legs, cover yourself, we make them feel as though being born female they’re already guilty of something. And so, girls grow up to be women who cannot say they have desire. They grow up to be women who silence themselves. They grow up to be women who cannot say what they truly think. And they grow up–and this is the worst thing we do to girls–they grow up to be women who have turned pretense into an art form.”

 

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